Aviso aos navegantes

Este blog é apenas uma voz que clama no deserto deste mundo dolorosamente atribulado; há outros e em muitos países. Sua mensagem é simples, porém sutil. É uma espécie de flecha literária lançada ao acaso, mas é guiada por mãos superiores às nossas. À você cabe saber separar o joio do trigo...

28 de dezembro de 2013

Sobre a dificuldade humana de escutar

Enfrentando a Síndrome de Abstinência da mente não observada

Encontrando sua própria voz

Se você escolher de acordo com sua própria inclinação, de acordo com sua própria intuição... (a voz interior) é muito forte nas crianças, mas aos poucos, lentamente enfraquece. As vozes dos pais e dos professores, da sociedade e dos padres, vão se fortalecendo. Agora se você quiser descobrir qual é sua voz, você terá que passar através da multidão de ruídos.

Basta olhar dentro: de quem é essa voz? Às vezes é o seu pai, às vezes é sua mãe, às vezes é seu avô, às vezes é o seu professor; e essas vozes são todas diferentes. Apenas uma coisa você não será capaz de encontrar facilmente – sua própria voz. Ela tem sido sempre reprimida. Foi dito a você para escutar os mais velhos, para escutar os padres, para escutar os professores. Nunca lhe foi dito para escutar seu próprio coração.

Você está carregando sua própria pequena voz, suave, não ouvida, e no meio da multidão de vozes que foram impostas sobre você, é quase impossível encontrá-la. Primeiro você terá que se livrar de todos esses ruídos, alcançar uma certa qualidade de silêncio, paz, serenidade. Só então isso virá, como uma surpresa, que você também possui sua própria voz. Ela sempre esteve aí como uma corrente subterrânea.

A menos que você tenha encontrado sua própria tendência, sua vida vai ser uma longa, longa tragédia, do berço ao túmulo. As únicas pessoas que foram felizes no mundo são aquelas que viveram de acordo com sua própria intuição e se rebelaram contra qualquer esforço feito pelos outros para impor as idéias deles. Quão valiosas essas idéias possam ser, elas são inúteis porque não são suas. A única idéia significante é aquela que surge de você, cresce em você, floresce em você.

Primeiro Passo: Quem está falando, por favor?

O que quer que você esteja fazendo, pensando, decidindo, pergunte a si mesmo: isso está vindo de mim ou é outra pessoa falando?

Você ficará surpreso quando você encontrar a verdadeira voz. Talvez seja sua mãe; você irá ouví-la falar novamente. Talvez seja seu pai; não é absolutamente difícil de detectar. Isso permanece lá gravado em você exatamente como lhe foi dado pela primeira vez – o conselho, a ordem, a disciplina, ou o mandamento. Você pode encontrar muitas pessoas: os sacerdotes, os professores, os vizinhos e os parentes.

Não há nenhuma necessidade de lutar. Basta saber que essa não é sua voz, mas a de outra pessoa – quem quer que esse outro alguém seja – você sabe que você não irá segui-lo. Sejam quais forem as conseqüências – boas ou ruins – agora você está decidindo mover-se por si mesmo, você está decidindo ser maduro. Você tem permanecido por demais uma criança. Você permaneceu por demais dependente. Você deu ouvidos a todas essas vozes e as seguiu bastante. E para onde elas lhe trouxeram? Para uma confusão.

Segundo Passo: Obrigado... e Adeus!

Uma vez que você identifica de quem é essa voz, agradeça a pessoa, peça para ser deixado só e diga adeus a ela.

A pessoa que lhe deu a voz não era seu inimigo. A intenção dela não era ruim, mas isso não é uma questão de intenção. A questão é que ela impôs algo sobre você que não está vindo de sua fonte interior; e qualquer coisa que proceda do exterior lhe torna um escravo psicológico.

Uma vez que você disse claramente a uma certa voz, ‘Deixe-me em paz’. Sua conexão com ela, sua identidade com ela, é quebrada. Isso foi capaz de lhe controlar porque você estava pensando que era sua voz. Toda a estratégia era a identidade. Agora você sabe que isso não é seus pensamentos, nem sua voz; isso é algo estranho a sua natureza. Reconhecer isso é suficiente. Livre-se das vozes que estão dentro de você e logo você ficará surpreso de ouvir uma pequena voz suave, a qual você nunca tinha ouvido antes... então um súbito reconhecimento de que essa é sua voz.

Ela sempre esteve aí, mas ela é muito suave, uma pequena voz porque ela estava reprimida desde quando você era uma criança muito pequena, e a voz era muito débil, apenas um botão, e estava coberta com todo tipo de asneiras e você esqueceu da planta que sua vida é, a qual ainda está viva, esperando que você a descubra. Descubra sua voz e então siga-a sem nenhum medo.

Quando isso acontece, aí está a meta da sua vida, aí está seu destino. É só aí que você irá encontrar realização, contentamento. É só aí que você irá florescer – e nesse florescimento, o saber acontece.
Osho, em "From Ignorance to Innocence"

18 de dezembro de 2013

A conexão com a emissora do Ser que somos

A jornada do auto percebimento

Sobre nossos desencontrados encontros sexuais

Retomando a Consciência em todas as nossas atividades

Do Homem Demens ao Homo Sapiens

Diálogo sobre os necessários estados de saturação e prontificação

10 de dezembro de 2013

Olhando para o processo de retomada da Consciência



Não crer na glória de sua própria alma é o que a Vedanta chama de ateísmo.
Swami VIvekananda


Ao utilizar o termo "realização" refiro-me, é claro, não apenas a uma concepção moral, ou teórica, a qual pode vir e ir, mas exatamente ao CONHECIMENTO COMO PARTE DE NÓS MESMOS, em outras palavras, que está em nós e além de nós. É difícil prolongar esta explanação, a qual pertence à consciência que transcende os termos de uma linguagem que é aceita, conhecida e vivenciada por todos. (...) A "Realização", no sentido usado, não é uma experiência de muitos homens e tampouco pode ser enquadrada numa combinação de elementos lógicos e expressos pela linguagem da mente, nem se desdobrar de componentes similares e, desse modo, finalmente torna-se acessível à mente externa.

Portanto, GOSTEMOS OU NÃO, este é um fato e nada pode mudá-lo. Não obstante, um tipo de consolo existe. Aqueles que vivenciaram a Realização sempre a reconheceram, embora fossem incapazes de expressá-la em palavras.

Na língua francesa, tão admiravelmente adaptada à mais sutil espécie de pensamento filosófico, há uma bela expressão: "L'ODEUR DE SAINTETÉ", isto é, "o odor da Santidade". Usando o mesmo idioma, podemos dizer "o odor da Realização", numa tentativa de definir o indefinível.

Mouni Sadhu, em, "Meditação"

5 de dezembro de 2013

É preciso perceber o que os religiosos estão apontando

Às vezes podemos compreender e realizar em nós o significado místico dos ensinamentos dos Mestres, mas a nossa personalidade esquece facilmente esses momentos tão importantes.  "O caminho é longo e eu estou longe do lar" -  Mouni Sadhu - Dias de Grande Paz
Você com certeza, já de ter vivenciado a experiência de, enquanto caminha descontraidamente pela rua, ser abordado por um desconhecido que lhe solicita informações de como chegar em determinado local. Quase sempre, mesmo se não conhecemos bem o caminho, mesmo se temos apenas uma breve noção do local perseguido por tal caminhante, é muito forte nosso impulso interno para compartilhar algo que lhe faculte tal aproximação. Se, de fato, com propriedade já estivemos em tal local, não será difícil "apontar" pela direção, "apontar" por determinados pontos pelos quais o caminhante possa perceber, durante sua caminhada, que está se deparando com a direção correta. Quase sempre, quando o caminhante de nós se despede, podemos perceber que, para ambos, dá-se um sentimento prazeroso que se manifesta na ação do compartilhar. Não sabemos se o caminhante, de fato, alcançará o local que lhe apontamos, mas, permanece em nós, mesmo que por breves instantes, o anseio de que o mesmo possa desfrutar da tranquilidade de ter alcançado o objetivo de seu caminhar. Quanto a nós, alegremente, prosseguimos em nossa direção.
Outsider

28 de novembro de 2013

O propósito dos nossos encontros

O doloroso processo de resgate da sanidade consciencial

liberdade não é libertinagem

Pra que serve o disfuncional modelo social?

Consciência sem pensamento – Parte 1


A questão é a seguinte: O que é essa experiência? Ou melhor, já que uma experiência só pode ser realmente conhecida por uma pessoa que por ela tenha passado, podemos perguntar: Qual é a natureza dessa experiência? E, tentando indicar uma resposta de algum tipo para essa pergunta, acho que isso é extremamente difícil, pela simples razão já mencionada, ou seja, porque é difícil ou mesmo impossível que uma pessoa preste um testemunho verdadeiro e confiável sobre uma experiência que ocorreu a outrem.

Se eu pudesse usar as palavras exatas do mestre, sem nenhuma influência derivada seja de mim mesmo, seja da interpretação de um amigo, as coisas poderiam ser diferentes. Mas eu não pretendo fazer isso. Ainda que eu pudesse fazê-lo, a forma científica do velho mundo, na qual seus pensamentos se manifestaram, provavelmente seria como um obstáculo e fonte de confusão, em lugar de ser uma ajuda para o leitor. Na ver­dade, no caso dos livros sagrados, onde encontramos grande quantidade de informação acessível e autorizada, os críticos do Ocidente, embora em sua maioria concordem em que aí jazem experiências reais, não che­gam a uma conclusão única sobre o significado dessas experiências.

Por essas razões, prefiro não tentar ou pretender dar o ensinamento exato, sem preconceitos, sobre os Gurus hindus e suas experiências, mas apenas indicar, com minhas próprias palavras, tanto quanto possível, e empregando minha forma de pensamento moderna, o que considerei ser a direção na qual devemos olhar para esse mundo de conhecimentos an­tigos, que influenciaram de forma notável e estupenda o Oriente, e que ainda hoje é a sua principal característica que o diferencia do mundo ocidental.

Em primeiro lugar, quero prevenir-me contra um erro extremamente fácil de se cometer. É fácil concluir, e muitas vezes assim ocorreu, em todos os casos em que se atribui a uma pessoa a possessão de uma faculdade fora do comum, que essa pessoa subiu de nossa esfera à região sobrenatural e possui, portanto, todas as faculdades próprias dessa região. Por exemplo, se ele ou ela são considerados possuidores da clarividência, supõe-se que conheçam ou devam conhecer todas as coisas. Caso uma pessoa tenha demonstrado o que parece ser um poder milagroso, em qualquer circunstância ou tempo, pergunta-se, até mesmo de forma depreciativa, por que ele ou ela não demonstraram tal poder em outras ocasiões e em outros casos.

Devemos precatar-nos contra todas essas generalizações banais. Se existe uma forma de consciência mais elevada, que pode ser obtida pelo homem, acima daquela atualmente por ele possuída, é provável, embora não certo, que ela se esteja desenvolvendo lentamente e com inúmeras pausas em seu caminho. No passado remoto do homem e dos animais, a consciência da sensação e a consciência do eu desenvolveram-se sucessivamente, cada uma delas dando origem a inúmeros ramos que se espalharam continuamente. Em algum momento da vasta experiência desse novo crescimento, uma nova forma de consciência deve ter parecido milagrosa, comparada à anterior. Imaginemos a maravilha que deve ter sido a revelação primeira do sentido da visão e como deveria ser inconcebível para aqueles que ainda não o possuíam, embora certamente os primeiros empregos dessa faculdade devam ter sido carregados de desilusão e erro. E pode ser que haja uma visão interior, que transcende a vista, tanto quanto a vista transcende o tato. É mais do que provável que nos ocultos nascimentos do tempo espreite uma consciência que não é aquela dos sentidos ou a do eu, ou que, pelo menos, inclui e ultrapassa totalmente a essas duas; uma consciência na qual o contraste entre o eu e o mundo exterior, a distinção entre sujeito e objeto desaparecerá. Aquela porção do mundo onde somos admitidos através dessa consciência (chame-o de sobrenatural ou como quer que queira), provavelmente é, pelo menos, tão vasta e complexa como a parte que já conhecemos e o progresso nessa região deve ser pelo menos tão lento, trabalhoso, fundado em tentativas várias, descontínuo e incerto, como na já conhecida. Não há um súbito ascender do corredor ao Olimpo e os caminhos que levam de um ao outro, quando os encontramos, são longos e se confundem em sua variedade.

Não devemos supor que aquelas pessoas que atingiram uma porção dessa região sejam semideuses ou infalíveis. Na realidade, em muitos casos, a extrema novidade e estranheza da experiência dão origem a sequências fantasmagóricas de especulação ilusória. A essas pessoas deveríamos considerá-las como os tipos mais elevados da humanidade, sendo aquelas que adquiriram algumas novas faculdades que já estão no ar, embora nem sempre assim ocorra, e há casos, que podem ser facilmente reconhecidos, nos quais pessoas decididamente deficientes ou de baixa natureza moral adquirem poderes que deveriam pertencer aos graus mais elevados da evolução, e que, em função disso, tornam-se extremamente perigosas.

Os mestres hindus insistem sobre tudo isso. Eles dizem — e eu acho que isso exprime a realidade da sua experiência — que nada existe de anormal ou milagroso sobre o assunto. Afirmam que a aquisição das faculdades é, em resumo, o resultado de uma longa evolução e treinamento e que há distintas leis que as dirigem e uma ordem que prevalece entre elas. Reconhecem a existência de pessoas com um poder demoníaco, que adquiriram certos poderes sem que a eles corresponda uma determinada evolução moral. Admitem que as fases mais elevadas de consciência são raras e que até hoje poucos foram os que as atingiram. Tendo estabelecido, pois, esses poucos princípios, penso que podemos prosseguir, dizendo que o que os Gnani procuram e obtêm é uma nova ordem de consciência, à qual podemos chamar pelo nome universal de Consciência Cósmica, em oposição à consciência corpórea especial e individual que nos é familiar. Não posso afirmar que na filosofia hindu seja usada a precisa correspondência a essa expressão "consciência universal". Entretanto, o Sat-chit-ánanda-Brahm, meta de todos os iogas, indica essa mesma ideia. "Sat" significa a realidade; "chit", o conhecimento, a percepção; "ánanda", a bênção; a unidade de todos é a manifestação do Brahma.

O Ocidente procura pela consciência individual, pela mente enriquecida, por percepções instantâneas e por memórias, pelas esperanças e medos individuais, ambição, amores, conquistas; pelo eu, o eu localizado em todas as suas fases e formas e sequer desconfia que exista uma consciência universal. O Oriente busca a consciência universal e nos casos em que essa busca é satisfeita, o eu individual e a vida transformam-se em um mero filme e são apenas sombras, veladas pela glória que lhes é revelada do outro lado.

A consciência individual assume a forma do Pensamento, que é fluido e móvel, em estado permanente de mudança, em luta constante com o sofrimento e os esforços. A outra Consciência não se manifesta sob a forma de pensamento. Ela toca, ouve, vê e é aquilo que percebe, sem movimento, sem mudanças, sem esforços, sem distinção entre sujeito e objeto, mas com uma Felicidade profunda e indescritível.

A consciência individual está estreitamente ligada ao corpo. De certa forma, os órgãos do corpo são os seus órgãos. Mas o corpo inteiro é como um só órgão da Consciência Cósmica. Para chegar a essa última, devemos ter o poder de nos conhecer como ente separado do corpo, entrar, de fato, em um estado de êxtase. Sem isso, a Consciência Cósmica não pode manifestar-se.

Diz-se que há quatro principais experiências na iniciação: (1) o encontro com um Guru; (2) a consciência da Graça, ou Arul, que pode ser interpretada como a consciência de uma mudança, até mesmo fisiológica, trabalhando dentro do indivíduo; (3) a visão de Shiva (Deus), com a qual o conhecimento do próprio eu, como distinto do corpo, está intimamente relacionado; (4) o encontro com o universo interior. Também se diz que "o sábio, quando seus pensamentos se tornam fixos, percebe dentro de si mesmo a consciência Absoluta, que é Sarva Sakshi, Juiz de todas as coisas".

Entre os eruditos, houve grandes disputas quanto ao significado da palavra Nirvana, para saber se ela indicava um estado de não consciência ou um estado de consciência profundo, total. É provável que ambas as opiniões tenham fortes justificativas, pois esse é um assunto que não admite definição em termos da linguagem comum. O que é importante ver e admitir é que sob esse e outros termos similares existe realmente um fato concreto e reconhecível, ou seja, um estado de consciência, que já foi experimentado inúmeras vezes e que, para os que por ele passaram, ainda que em leve grau, pareceu superior a toda uma vida de devoção. É claro que é fácil representar a coisa por uma simples palavra, uma teoria, uma especulação do hindu sonhador. Mas as pessoas não sacrificam suas vidas por palavras vazias, nem transformam o destino de continentes com uma simples regra filosófica abstrata. Não, a palavra representa uma realidade, algo básico e inerente à natureza humana. Não se trata, em realidade, de definir o fato, pois não podemos fazê-lo, mas de atingi-lo e passar pela experiência. Nesse ponto, é interessante observar que a moderna ciência ocidental, que até aqui se ocupou, sem grandes resultados, com teorias mecânicas sobre o universo, começa a aproximar-se dessa ideia de existência de outra forma de consciência. O extraordinário fenômeno do hipnotismo, que sem dúvida alguma até certo ponto se relaciona com o assunto que estamos discutindo, e que há séculos foi reconhecido no Oriente, está obrigando os cientistas ocidentais a aceitarem a existência da chamada segunda consciência do corpo. Os fenômenos realmente parecem inexplicáveis sem a aceitação de alguma espécie de segunda agência e a cada dia torna-se mais difícil não usar a palavra consciência para descrevê-la. Quero deixar claro que em nenhum instante estou admitindo que essa consciência secundária dos hipnotistas seja em todos os aspectos idêntica à Consciência Cósmica dos ocultistas orientais. Pode ser que sim, pode ser que não. As duas espécies de consciência podem cobrir o mesmo campo ou podem apenas prolongar-se até certa extensão. Eis uma questão que não ponho em discussão. O ponto sobre o qual desejo chamar a atenção é que a ciência ocidental está analisando a possibilidade da existência, no homem, de um outro tipo de consciência, além dessa que nos é familiar. A. Moll cita o caso de Barkworth, que "pode ordenar extensas séries de figuras, enquanto discute vivamente outros assuntos, sem permitir que sua atenção seja totalmente desviada pela discussão", e nos pergunta como Barkworth poderia fazer isso, sem a presença de uma segunda consciência, que se ocupe das figuras enquanto a primeira está envolvida com a argumentação. F. Myers é um leitor que permite que sua mente, por um minuto completo, abandone inteiramente o assunto do livro que lê e se imagine sentado ao lado de um amigo, conversando com ele. Subitamente, ele desperta e vê que continua à mesa, lendo com perfeita coerência. O que podemos dizer em um caso assim? Citamos, também, o caso de um pianista que interpreta uma peça de memória e verifica que seu recital está sendo de fato perturbado por consentir que sua mente (sua consciência primária) se desvie do que ele está fazendo. Algumas vezes já foi dito que a verdadeira perfeição da interpretação musical demonstra ser ela mecânica ou inconsciente, mas podemos considerar justa essa afirmação? Não seria uma simples contradição o falar em termos de leitura inconsciente ou ordenamento inconsciente de séries de figuras?

Muitas das ações e processos do corpo, como, por exemplo, o ato de tragar, são efetuados por diferentes consciências pessoais; pela mesma razão, muitas outras ações e processos passam quase que despercebidos e parece razoável supor que esses últimos eram exclusivamente mecânicos e prescindiam de qualquer operação mental. Mas, no Ocidente, as últimas descobertas sobre a hipnose demonstraram algo que já era bem co­nhecido pelos faquires hindus — que sob certas condições podemos tornar-nos conscientes das ações e processos interiores de nosso corpo. Além disso, podemos, também, ter consciência de acontecimentos que estão ocorrendo a distância de nosso corpo e sem empregar os meios de comunicação comuns.

Daí a ideia de uma outra consciência, em alguns aspectos de escala mais ampla que a consciência comum, possuindo seus próprios métodos de percepção. Essa ideia tem ganho espaço na mente ocidental.

Há outra ideia, que a ciência moderna nos vem apresentando e que nos chega através do mesmo conceito: a ideia da quarta dimensão. Mui­tas coisas tornam-se concebíveis, se aceitarmos que o mundo tem na realidade quatro dimensões de espaço, em lugar de apenas três. Torna-se possível conceber que objetos aparentemente separados, como, por exem­plo, diferentes pessoas, na realidade estão fisicamente unidos; que coisas aparentemente separadas por enormes distâncias de espaço, na realidade estão praticamente juntas; que uma pessoa ou qualquer outro objeto pode entrar e sair de um quarto fechado, sem encontrar obstáculos nas pa­redes, portas, janelas etc.; e caso essa quarta dimensão deva converter-se em fator de nossa consciência, é evidente que deveríamos ter meios de conhecimento que para os sentidos comuns pareceriam milagrosos. Muitos fatos sugerem que a consciência alcançada pelos gnanis hindus, em seu grau, e pelos sujeitos hipnotizados, no deles, pertence a essa quarta di­mensão.

A Consciência Cósmica estaria relacionada à consciência comum, assim como o sólido está relacionado à sua superfície. As fases da consciência pessoal são apenas fatos diferentes da outra consciência. E ex­periências que, no indivíduo, parecem distantes umas das outras, talvez na consciência universal estejam igualmente próximas. O próprio espaço, como o conhecemos, pode ser praticamente aniquilado pela consciência de um espaço maior, do qual ele não é senão a superfície. Assim, tam­bém, uma pessoa que viva em Londres pode de repente descobrir que sua porta dos fundos se abre simplesmente e sem cerimônias em Bombaim.

"A verdadeira qualidade da alma", disse o Guru, um dia, "é a do espaço, pelo qual de resto ela está em toda parte. Mas esse espaço (Akasa) dentro da alma está muito acima do espaço material. Ele inclui todos os sóis e estrelas, aparecendo como se fosse um átomo do primeiro", e aqui ele levantava seus dedos, como se detivesse um pouco de pó entre eles.(*1)

(*1) Cf. com Whltman: "Deslumbrante e tremendo, como o nascer do sol me ma­taria rapidamente, se eu não pudesse, agora e sempre, expulsar de mim o nascer do sol. Também nós nos levantamos deslumbrantes e tremendos como o sol".

"Pelo qual está em toda parte". "Indiferença", "Igualdade". Eis um dos mais importantes pontos do ensinamento do Guru. Pois (por razões familiares), embora mantendo muitos dos regulamentos de casta ele pró­prio, e embora ensinando isso à massa do povo, ou seja, que as regras de casta eram necessárias, nunca se cansava de afirmar que quando chegasse o tempo de o homem e a mulher se emanciparem, todas essas regras deveriam ser abandonadas, como se não tivessem importância: todas as distinções de castas, classes, todos os sentimentos de superio­ridade ou de bem-estar próprio, até mesmo de certo e errado, e deveria prevalecer o mais absoluto sentimento de igualdade para com todas as pessoas e determinação em sua manifestação. Foi certamente notável (embora eu soubesse que os livros sagrados o continham) encontrar esse princípio da Democracia Ocidental tão vividamente ativo e operando sob os inumeráveis costumes da vida social oriental. Mas, assim é e nada pode demonstrar melhor a relação existente entre Oriente e Ocidente.

Esse sentimento de igualdade, de liberdade dos regulamentos e confinamentos, de ausência de exclusividade, e da vida "que está em toda parte" pertence, evidentemente, mais à parte Cósmica ou universal do homem do que à sua parte individual. Para essa, esse sentimento é sempre um obstáculo e uma ofensa. É fácil demonstrar que os homens não são iguais, que não podem ser livres, e assinalar o absurdo de uma vida que seja indiferente a todas essas condições. Entretanto, para a consciência maior, estes são fatos básicos, que jazem na raiz de toda a vida comum da humanidade e alimentam o verdadeiro indivíduo que os nega.

Repetindo, pois, a nossa afirmação, de que usando tais termos, como Consciência Cósmica e Universal, não queremos dizer que no instante em que o homem abandona sua parte pessoal imediatamente surge o conhe­cimento universal e ilimitado, mas apenas que aparece uma ordem mais elevada de percepção, e admitindo a complexidade da região assim por nós denominada, e o caráter absolutamente microscópico de nosso conheci­mento sobre ela, podemos dizer, uma vez mais, também como generali­zação, que o Oriente tem buscado a consciência universal e que o ocidente investiga a consciência pessoal ou individual. Como sabemos bem, o Orien­te tem várias seitas e escolas filosóficas, com sutis discriminações de qualidades, essências, deuses, demônios etc., que não pretendo abordar e onde me sentiria bastante incompetente. Deixando tudo isso de lado, con­servarei apenas dois termos ocidentais e tentarei analisar a questão mais a fundo, chegando aos métodos utilizados pelos estudantes do Oriente para obter a Consciência Cósmica ou essa ordem mais elevada de consciência que lhe é característica.

Edward Carpenter – Do Pomo-de-Adão à Elefanta


16 de novembro de 2013

A morte do místico, Jiddu Krishnamurti, por Osho

Jiddu Krishnamurti morreu segunda-feira passada, em Ojai, na califórnia. No passado você falou dele como um ser iluminado. Você poderia, por favor, comentar sobre a sua morte?

“a morte de um ser iluminado como j. Krishnamurti não é algo para se estar triste é algo a ser comemorado com músicas e danças. É um momento de regozijo.

Sua morte não é uma morte. Ele conhece a sua imortalidade. A sua morte é apenas a morte do corpo como organismo. Mas Jiddu Krishnamurti vai continuar a viver na consciência universal, para sempre e sempre.

Apenas três dias antes de Jiddu Krishnamurti ter morrido, um dos meus amigos estava com ele e me informou que as suas palavras para ele foram muito estranhas. Jiddu Krishnamurti estava muito triste e ele simplesmente disse uma coisa: "eu perdi a minha vida. As pessoas estavam me ouvindo como se eu fosse um entretenimento".

O místico é uma revolução, ele não é um entretenimento.

Se você o ouvir, se você o deixar, se você abrir as portas para ele, ele é puro fogo. Ele vai queimar tudo que é lixo em você, tudo que é velho em você, ele vai transformá-lo, purificá-lo em um novo ser humano. É arriscado permitir o fogo queimar seu ser, ao invés de abrir as portas, você imediatamente fecha todas as portas.

Mas entretenimento é outra coisa. Ele não transforma você. Ele não o torna mais consciente, ao contrário, ele ajuda você a ficar mais inconsciente por duas, três horas, para que você possa esquecer todos os seus medos, preocupações, ansiedades, de modo que você pode se perder no entretenimento. Você pode notar isso: como o ser humano vem passando através dos séculos, ele conseguiu criar mais e mais entretenimento, porque ele precisa cada vez mais estar inconsciente.

Ele tem medo de ser consciente, porque estar consciente significa passar por uma metamorfose, uma transmutação, uma transformação.

Eu fiquei mais chocado com a notícia do que com a morte. Um homem como Jiddu Krishnamurti morre e os jornais não têm espaço para se dedicar a esse homem que durante 90 anos continuamente veio ajudar a humanidade a ser mais inteligente, a ser mais madura. Ninguém trabalhou tão duro e por tanto tempo. Foi publicada apenas uma notícia pequena, imperceptível e se um político espirra ele faz manchetes."

Osho

Nisargadatta Maharaj - A Essência do Seu Ensinamento

Simplesmente seja um espaço silencioso

"Você não tem que fazer nada. Você tem apenas que ser um observador de tudo que está acontecendo ao seu redor. O fazer é de novo uma viagem do ego. Fazendo, o ego se sente bem — algo está aí para ser feito. O fazer é um alimento para o ego, ele fortifica o ego. Não faça nada e o ego cai por terra; ele morre, ele não é mais nutrido.

Então, simplesmente seja um não fazedor. Não faça nada que diga respeito a busca por Deus, e pela verdade. Em primeiro lugar isso não é uma busca, assim você não pode fazer nada a respeito. Simplesmente seja.

Deixe-me dizer-lhe isso de uma outra forma: se você está em um estado puro de ser, Deus vem até você. O homem nunca poderá encontrá-lo; Deus encontra o homem.

Simplesmente esteja em um espaço silencioso — não fazendo nada, não indo a lugar algum, não sonhando — e nesse espaço de silêncio repentinamente você encontrará Deus. Porque ele sempre esteve presente! Simplesmente você não estava em silêncio para que pudesse vê-lo e você não pôde ouvir a sua voz, pequenina e quieta."

Osho

14 de novembro de 2013

Vitória pela Auto-Suficiência

Quem pouco fala, encontra atitude certa
Em todos os acontecimentos.
Não desespera quando rugem tufões,
Porque sabem que não tardam a passar;
Sabem que um chuveiro não dura o dia todo,
É produzido pelo céu e pela terra.
Se tudo é tão inconstante,
Como não o seria o homem?
Por isto o que importa
É a atitude interna,
Isto é : adaptar-se em silêncio
A todos os acontecimentos.
Quem harmoniza os seus atos
Com o Tao da Realidade
Se torna um com ele.
Quem, no seu agir, é determinado
Por seu próprio ego,
Identifica-se com o ego.
Quem identifica o seu agir com coisa qualquer,
É identificado com esta coisa.
Quem sintoniza com a alma do Infinito,
Se assemelha em tudo ao Infinito.
E quem assim se harmoniza com o Infinito,
Recebe os benefícios do Infinito.
Tanta confiança recebe cada um,
Quanta confiança ele der.

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Aqui é enunciado o antiquíssimo princípio hermético: o homem só pode receber algo na medida em que dá. O receber na vertical é diretamente proporcional ao dar horizontal. A receptividade é proporcional à datividade. O segredo de enriquecer não está no receber, mas sim no dar. As águas da Fonte Cósmica só enchem os canais humanos na medida em que estes se esvaziam. 

Lao Tsé - Tao Te King

O aparente fracasso do homem espiritual

Renunciai à vossa pretensa cultura,
E todos os problemas se resolvem.
Oh! Quão pequena parece à diferença entre o sim e o não!
Quão exíguo o critério entre o bem e o mal!
Como é tolo não respeitar o que merece ser respeitado de todos!
Oh solidão que me envolve todo!
Todo o mundo vive em prazeres como se a vida fosse uma festa sem fim,
Como se todos vivessem em perene primavera!
Somente eu estou só... Somente eu não sei o que farei...
Sou como uma criança que desconhece sorriso...
Sou como um foragido sem pátria nem lar...
Todos vivem na abundância, somente eu não tenho nada...
Sou um ingênuo, um tolo. É mesmo para desesperar...
Alegres e sorridentes andam os outros!
Deprimidos acabrunhado ando eu...
Circunspetos é ele, cheios de iniciativas!
Em mim, tudo jaz morto...
Inquieto, como as ondas do mar, assim ando eu pelo mundo...
A vida me lança de cá para lá, como se eu fosse uma folha seca...
A vida dos outros tem um sentido, e eu não tenho uma razão-de-ser....
Somente a minha vida parece vazia e inútil;
Somente eu sou diferente de todos os outros,
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E, no entanto - sossega meu coração!
Tu vives no seio da mãe do Universo.

Lao Tsé - Tao Te King

À primeira vista parece estranho esse pessimismo do autor, esse lúgubre desânimo da vida, que lembra os lamentos de Jó. Mas não convém esquecer que todo homem que deixou a sociedade dos profanos tem, de início, a sensação duma solidão imensa, dum saara sem oásis; sente-se exilado, sem pátria nem lar. O homem espiritual se sente desambientado aqui na terra; ninguém o compreende; todos os consideram um estranho, não pertencente ao nosso mundo. O próprio Jesus passou por esses transes: "As raposas têm suas cavernas, as aves têm seus ninhos — o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça". E a seus discípulos diz ele: "Por causa de mim e do Evangelho sereis odiados de todos..." "Bem-aventurados os que choram..."

Ao descer do Tabor, ele exclama: "Ó geração perversa e sem fé! Até quando estarei convosco? Até quando vos suportarei?"

Mas esta aparente solidão e abandono do homem espiritual é a "Comunhão dos antos", a mais bela companhia do Universo, como Lao-Tsé lembra nas últimas linhas. É o total abandono de Jó — que estava na companhia de Deus, no coração do Universo. Abandonado se sente o ego — bem amparado está sempre o EU. "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?... Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito."


A vida sem a Graça é muito sem graça

29 de outubro de 2013

Uma visão sobre a mente séria


Em geral, pensamos ser "sérios", isto é, dispostos a um exame refletido dos problemas da vida - e até certo ponto o somos, pois do contrário não estaríamos aqui... A mente vulgar, superficial, pode também tornar-se muito "séria"; mas, quando se torna "séria", torna-se também algo absurda. Não sei se já notastes como as pessoas de mente vazia se mostram, freqüentemente, muito sérias. São muito loquazes, tomam ares importantes, e para essa mente tudo se torna um problema que cumpre estudar, analisar, penetrar; entretanto, continua a ser uma mente muito pouco profunda. E há, também, a mente muito lida, muito hábil no argumentar, no analisar, capaz de aduzir citações, extraídas de seu vasto reservatório de conhecimentos. Como muito bem sabeis, esse tipo de mente é solerte, incisivo, hábil, mas eu não a chamaria uma mente séria, como assim não o chamaria à mente superficial que quer mostrar-se séria. E há, ainda, a mente sentimental, emotiva, que facilmente se apaixona e se deixa levar a um sentimento de superficial qualidade, chamado "devoção"; mas essa mente, para mim, também não é séria.

 JIDDU KRISHNAMURTI



28 de outubro de 2013

Graça: o Coração Que Está Aberto à Verdade



Excerto da 1ª parte do Satsang intensivo em São Petersburgo - Graça: o Coração Que Está Aberto à Verdade, do dia 27 de Outubro de 2013.

27 de outubro de 2013

Uma mensagem não egocrática

As ilusões do ego

Faz parte do ego, após ter um pequeno "lampejo iniciático da 'Coisa'", numa tentativa de retardar o processo da retomada da Consciência Real que somos, passar a amenizar a escuta atenta, começar a formular imagens através de novos condicionamentos e partir pelo mundo — desvirtuando a fala do finado poeta — disparando contra o Sol sua "mental-lhadora" cheia de mágoas, se achando "eu sou o cara", sem perceber que o tempo não parou e é ego que continua rolando seus dados livrescos, sobrevivendo sem nenhum arranhão...
Outsider

Palestra Prof. Huberto Rohden - As ilusões do ego

16 de outubro de 2013

Sobre o processo de dispersão mental

Filme: O Príncipe dos Desertos


Inicio do Século 20, Arábia. Sob o impiedoso céu do deserto, dois lideres guerreiros se enfrentam cara a cara. Os corpos de seus soldados estão espalhados pelo campo de batalha. O vitorioso Nesib, Emir de Hobeika ( Antonio Banderas ), dita seus termos de paz para o rival Ammar, Sultão de Salmaah transforma de bibliotecario em um verdadeiro lider. O palco está montado para uma disputa épica pelo controle de Faixa Amarela, pelo controle dos dois reinos - pelo controle do futuro.

27 de setembro de 2013

Quem se interesserá por um insight purificador das células cerebrais?

Os pensamentos como servidores de confiança

Sobre a paixão pelo resgate da consciência pura que somos

Krishnamurti não oferece nada pra ninguém: só arranca!

Descontentamento: a trilha menos percorrida

Um olhar sobre o embaçamento da memória

16 de setembro de 2013

A função do pensamento psicológico é criar conflito

A mente em conflito deforma tudo o que pensa ver

Abrindo mão do Deus feito a imagem e semelhança do pensamento social

O ego não suporta ser observado

A essência do chute psíquico

Por não se conhecer, é que ninguém fala de si

A mensagem de Krishnamurti no filme GUERRA MUNDIAL - Z

A sociedade não é o problema; o problema somos nós

Não há nada de real no idealismo e no achismo

Todos falam "eu te amo" sem saber o que é o amor

Como pensavam os grandes mestres em termos de relações afetivas?

Cortando o umbilical cordão social

O observador como censor da mente

Não podemos ficar apegados nas citações de terceiros

Não tenho como refutar os ensinamentos de Krishnamurti

Os pensamentos não são de ninguém; estão por aí

A liberdade não está em citações livrescas

Na aceitação do que é encontra-se o equilíbrio

Sobre o ficar psicologicamente só

A semelhança entre a fuga através de Deus ou da bebida

Sobre o "cultoalizar" Krishnamurtiniano

Um olhar sobre a dor e o esforço

Um olhar sobre a ação do observador e coisa observada

Diálogo sobre observador e coisa observada

Um olhar sobre a natureza exata da natureza exata do conflito humano

É possível uma mente livre dos padrões sociais?

Sobre a questão da finalidade da vida

31 de agosto de 2013

O que estamos buscando?


Já que ninguém se manifestou para subir, eu vou tentar compartilhar um pouquinho, das vivências aqui, das percepções, não é? do momento. Sei lá! O que vier! Uma das coisas que eu já tenho muito em mente é que a mensagem, a transmissão da percepção, do momento, não pode ser organizada. Se eu começar a organizar, se eu tentar me preocupar em expressar alguma coisa já é o próprio fortalecimento do eu, é o próprio fortalecimento do ego, que pode até sair muito bonito, mas não vai tocar de coração pra coração; pode soar bonito e tocar de intelecto pra intelecto. Mas, o que funciona mesmo é essa reverberação, essa coisa que vem sem ser organizada e que surge quando se dá espaço pra essa consciência que somos, se manifestar, sem se preocupar em ficar buscando na memória a coisa; a coisa flui naturalmente, não é? A coisa flui naturalmente. E a gente vem aí tentar trocar o porquê dessa sala, o porquê desses encontros, e o que a gente está conseguindo vivenciar e às vezes a gente entra um pouco no processo histórico dessa personagem de algumas décadas, e o que se está percebendo.

Achei esse tema muito interessante, nós extraímos ele de um livro, que não precisaria nem abrir o livro; era só ficar na capa desse livre do Krishnamurti, não é? “O que estamos buscando?”... O nome do livro é esse... é “O que estamos buscando?”, não é? Por que começamos a buscar alguma coisa, não é? Por que, não é?

Eu percebo que é assim: esse é um vício herdado, é um vício “transgeracional”, não é? Essa busca que você vai ser alguma coisa, ou que você vai encontrar a felicidade quando lá na frente você vir a ser alguma coisa ou vir a ter alguma coisa, não é? Todos aqui já devem ter perguntado para uma criança, como, quando criança, com certeza ouviram de algum adulto significativo, aquela pergunta: “o que você vai ser quando crescer?” não é?... “O que você vai ser?” Quer dizer: você não é! Você não é nada agora!... Só lá na frente, lá num futuro longínquo, não é? se você adotar umas letrinhas na frente do seu nome, com um quadrinho pendurado na parede, com uma estampilhazinha numa moldura, aí você vai ser alguma coisa, não é? Se você conseguir a casa da praia, a casa de campo, as viagens pela Europa e blá-blá-blá, blá-blá-blá, aí você vai ser alguma coisa, não é? E aí a gente sai partido atrás das coisas que esses adultos adulterados, com a sua educação, com a sua chamada educação adulterada, vão apontando, como fatores a serem conquistados e que prometem por felicidade; e que prometem pôr respeitabilidade; e que prometem por segurança. E aí lá vai aqui o garoto, cheio de medo, cheio de vergonha, cheio de sentimentos de inadequação, conseguidos aí dentro de um lar disfuncional, de muita repressão emocional, física, verbal, temendo o ambiente de alcoolismo e neurose; de ambientes escolares também profundamente neuróticos, onde não há a mínima expressão de uma educação psíquica, de uma educação amorosa, e eu saio correndo atrás dessas coisas que me colocaram como sendo válidas pra buscar, sem ter a mínima possibilidade de fazer qualquer questionamento quanto a esses posicionamentos aí; quanto a essas condições que foram colocadas pro freguês aqui, pra que ele fosse um homem de verdade, pra que ele fosse um homem de sucesso, pra que ele fosse um homem respeitado.

Então assim: não houve muita opção de escolhas; “É fazer ou fazer!... E engole o choro! Certo?... Engole o choro!... Vai atrás aí! Se vira nos trinta! Porque se não fizer desse jeito vai para o reformatório, certo?”... “Vai pro reformatório! Nós vamos botar você na forma aí! Não vem com essa rebeldia, ai!”

Então, aí, como você não é um adulto ainda; como você não tem nenhuma inteligência psíquica, capaz de te proporcionar aí uma autonomia psicológica, você fica nessa mendicância, da aceitação, dos tapinhas nas costas, não é? dessas pessoas significativas da sua vida. Mesmo que isso que você está fazendo para ter aceitação, “condicionada”, e que eles chamam de amor, você se estrumbique todo, se arrebente todo, se corrompa todo. Porque, corrupção, não é só passar dinheiro embaixo da mesa; corrupção é fazer tudo aquilo que fere, que contraria o seu mais íntimo estado de ser, não é?

Então, durante anos e anos, foi um processo de auto-corrupção, de auto-sabotagem aí, por querer fazer frente a essas descabidas exigências de uma estrutura familiar e social profundamente adulterada, profundamente corruptora da essência do ser que somos; que mata toda a sensibilidade; que arrebenta toda a originalidade; que estrangula toda a autenticidade.

Então, assim, você fica exposto por algumas décadas aí; pelo menos uma década e meia à esse tipo de ambiente abusivo, à esse tipo de estrutura social abusiva, limitante, que só quer fazer você ser uma peça consumista; que só quer fazer você “funcionar”, você ser um “funcionário” de sistema que faz você só uma peça para alimentar esse sistema, que não está nem um pouquinho preocupado em fazer sair essa inteligência que está aí; e trazer seu sopro; e traze sua voz; e trazer a sua nota; não tem nada disso... É uma estrutura que é só puro ajustamento a um processo tremendamente escravagista, limitante e que aqueles que não foram totalmente adulterados em sua sensibilidade, é óbvio que vão sentir uma dor muito forte e vão precisar de algum processo de anestesiar a esses sentimentos; de anestesiar essa dor dessa corrupção transgeracional; essa corrupção da essência daquilo que somos, pra nos ajustar àquilo que dizem que temos que ser, não é?

Então a gente sai aí durante muito tempo buscando tudo isso, pra ter essa respeitabilidade, pra ter essa aceitação, pra ter essa validação, pra ter esse seu cantinho, não é? onde você possa mostrar pros outros que você está sendo um homem de sucesso; que você merece respeito; que você merece ser convidado pros almoços de domingo. E todo mundo entra nesse joguinho!... Profundamente descontente!... Porque quando começa a tocar música do “Fantástico”, no domingo, todo mundo sabe muito bem aquela depressão que bate e tem que correr pra geladeira, abrir e comer alguma coisa, um chocolatinho, um docinho, um salgadinho, porque lá vem a segunda-feira, não é na cara? Com a mesma rotina, o mesmo tedio, a mesma insatisfação e aquele esforço violento, com os dentes “branco de laboratório químico”, pra disfarçar que eu sou um cara feliz, que eu sou um cara ajustado, não é cara?...

Essa aí foi minha história até que veio a depressão! E eu agradeço profundamente e, toda vez que vejo alguém com depressão eu estico a mão e dou os meus parabéns: “Você é uma bem-aventurado!”... Porque a depressão não é nada mais, nada menos, de um grito dessa inteligência psíquica, dessa inteligência que somos, dizendo: “Chega!... Chega!... Chega!... Não dá mais para se ajustar ao que não é ajustável!... Ou você faz o resgate daquilo que você é, ou eu te mato!”
Então, assim: pra mim, esse processo brecou com essa depressão profunda que quase me levou ao suicídio; por muito pouco não cheguei ao suicídio; que era uma compreensão errada da necessidade de um “egocídio” aí, que vem, sem esforço, que vem por esse processo do início de uma educação psíquica, e que cada um começa ter essa educação psíquica dentro dos ambientes que vão encontrando aí; dentro dos ambientes que vão encontrado. A minha educação psíquica começou dentro de um centro espírita, que foi o primeiro lugar que eu comecei a contrariar o processo nefasto do cristianismo que me foi apresentado; veja bem: do cristianismo que me foi apresentado; não estou falando mal contra o cristianismo, não. E aí começou todo um processo: encontrei os grupos anônimos, não é? A quem eu sou profundamente grato; em cada grupo anônimo que eu fiz parte, foi uma oficina aí de trabalho, pra colocar esses instintos naturais que nos foram dadas aí pela Grande Vida, que estavam totalmente deturpados pela ação dos condicionamentos... desse egocentrismo aí. Então, cada oficina aí foi trabalhando numa questão aí; e essas questões que me levaram a esses grupos, num determinado momento, elas foram sanadas, só que aí ficou um grande vazio, porque esse processo, esse processo de bê-á-bá psíquico, essa educação psíquica que a gente começa a colher em todas essas escolas aí; acredito que todas essas escolas que a gente foi passando aí — cada um sabe por onde passou — elas vão tirando esses condicionamentos materialistas, mas elas criam os condicionamentos espiritualistas, que às vezes são profundamente impossíveis — pelo menos pro freguês aqui, não era palpável, não é possível, não é possível. Quer dizer: eu troco uma imagem e vou pra uma imagem espiritualista e saio buscando isso daí.

Então, chegou um momento que essa busca também não estava funcional; não estava mais surtindo resultado; e foi aí que caiu na mão esse material aí, com, inicialmente, o Osho e depois com Krishnamurti. Houve antes de Krishnamurti, houve um período legal com o Osho e depois quando caiu Krishnamurti, aí a coisa começou a descer redondo... E ele começou a quebrar todos esses condicionamentos que eu também fui colhendo dentro dessa chamada busca da verdade, dessa chamada busca do despertar; que na realidade eu não estava buscando nada disso! Não estava tendo busca da verdade coisa nenhuma! Não estava tendo a busca da espiritualidade coisa nenhuma! O que ocorria é que havia um estado de profunda contradição interna, em tudo! Em tudo! Nas
nas relações; no cotidiano; na profissão... Em tudo!... Do freguês com o freguês mesmo!... Então, o que tinha aqui era uma busca pra desabafar aquele profundo estado de contradição. Foi sempre isso! Sempre procurando alguém pra me dizer como fazer pra sair daquele estado de conflito... Sempre foi isso! Não tinha esse negócio de correr atrás da verdade!

E aí eu percebo que essa coisa de buscar um Deus, aqui pro freguês, foi na realidade a tentativa de achar alguma coisa que pudesse tirar aquela dor que os humanos em volta de mim, por mais boa vontade que tivessem, tinham a sua limitação e não conseguiam expressar aquilo. Sabe aquela coisa que o poeta fala, não é? “Ninguém está me dizendo que eu quero ouvir; e ninguém também está entendendo que eu estou querendo dizer!” E aí, quando cai esse material do Krishnamurti, começo a perceber a realidade de como usei esses ambientes como uma fuga; como usei essas imagens, essas ideias de Deus, esses conceitos, esses achismos, todo esse material metafísico, esotérico, de auto-ajuda, simplesmente para tentar acabar com a dor e manter as zonas de conforto... E manter as zonas de conforto sem questioná-las. Só que é bem o que eu falei no encontro de ontem, não é? Krishnamurti não vem trazer paz pra ninguém, não! Não vem mesmo! Como nenhum homem aí que tenha tido uma percepção, como a verdade, não é? Porque não é o homem, não é a personalidade, mas essa Consciência que está ali, naquele veiculozinho de carnê e osso ali, ele não vem trazer paz, ele vem trazer a espada mesmo! Vem cortar aí, tudo o que é falso! Vem cortar tudo que é falso! E o que é difícil é justamente isso: esse processo de autoconhecimento, começa apresentar a falência de tudo o que foi montado durante décadas, em nome de encontrar essa respeitabilidade; e aí você começa a olhar a “natureza exata” de cada uma dessas relações, e começa a ver que cada uma dessas relações não foram montadas na base sólida do amor: foram sempre montadas em cima da busca da satisfação de algum instinto degenerado... É o instinto degenerado de segurança; o extinto degenerado do sexo; do companheirismo; do medo da solidão e do abandono; da facilitação diante da vida material... E aí você não sabe o que fazer com tudo isso, porque você começa a ver a grande fraude — a grande fraude — que é essa personalidade que seguiu um script social, que foi escrito por quem ele nem sabe quem escreveu isso... Então fica muito difícil olhar pra isso; e só os sérios mesmo, aqueles que tem saco roxo, vão conseguir olhar isso, de uma maneira como um cientista: sem entrar naquelas ideias reativas que o próprio pensamento cria. Porque o pensamento, ele também vai pegar tudo isso que a Consciência está trazendo à consciência, para criar conflito, para criar aquelas reações inconscientes inconsequentes, então chutar o pau da barraca de tudo! E não é bem isso a proposta! Pelo menos da minha compreensão aqui, na compreensão do freguês aqui; qualquer a ação que seja desse ego, desse fundo, pode trazer um alívio momentâneo, mas traz mais confusão ainda! Enquanto qualquer movimentação foi por essa base — a base é a confusão — o resultado vai ser confuso. Isso a gente foi vendo aí nessa caminhada e tem visto o quanto realmente é difícil ficar só sentado observando, porque pra mente lógica, cartesiana, racional, que foi condicionada a resolver problemas, a criar problemas e resolver problemas, a ter algum tipo de ação, “você tem que se doar”, “você precisa exercitar”, “você precisa e isso”, “você precisa fazer caridade”... Que é uma puta sacanagem, não é cara?... Você é usar o cara que está mais ferrado, para tentar tampar seus buraco aí, pela falta de competência de compreender a si mesmo, não é? É uma puta sacanagem esse negócio de caridade, não é cara?... Que criança esperança essa daí, não é cara?

Então, assim: hoje, fica bem claro, que o lance é só observar; só observar... Não é? Não buscar mais absolutamente nada! É um momento muito difícil também você se deparar, não é? Porque é frustra inclusiva essa ideia de “iluminação”. Frustra tudo! Esse material frustra tudo isso aí! Frustra toda a imagem que é criada; é tudo imagem! Até a imagem da iluminação, do que a eliminação pode trazer pra mim, do que o encontro com a verdade pode trazer pra mim. Na realidade, não se está querendo nada de um encontro com a verdade; só cá parar de sofrer, não é cara? Mas quero parar de sofrer, de novo colocando o resultado nas mãos de terceiros; só que agora o terceiro espiritual aí, é uma entidade aí. Quando você se depara com esses materiais tão claros que apontam a falência disso, a grande maioria não tem estrutura pra ficar com isso; porque não aprendeu a ficar com isso, não é? Não aprendeu a ficar nesse processo de autonomia psicológico, de sentar, não é? E observar!

E é isso que a gente vem fazendo; e é isso que essa sala vem apresentando; que esse material vem apresentando pro freguês aqui: uma capacidade de percepção nunca antes se quer imaginada; uma capacidade de ficar com o que é, nunca antes sequer imaginada; uma capacidade de não ter mais a necessidade de dar a última palavra; de não ter mais a necessidade de ficar entrando em controvérsias com aquele confradezinho que está ali totalmente identificado com esse processo de criar confusão, de querer vomitar o próprio estado interno de contradição, criando mais contradição, contaminando mais com contradição.

Então, hoje, o lance, é bem uma frase que a Deca gosta muito de falar aqui: “tempo de silêncio e solidão”... Está doendo? Faça uso dessa poderosa ferramenta que lhe foi dada pela Grande Vida: a bunda pra sentar numa cadeira; os dois cotovelos pra segurar a cabeça e observe o que está rolando. E, se você for sério, algo vai ser revelado!

Então é isso aí gente! Um fraterabraço pra vocês, obrigado pela escuta atenta!

Outsider44

Nós, adultos adulterados adulterantes




Nós, adultos adulterados adulterantes

... Psicológico aí, que foi colocado na nossa cabeça aí  e que fica esse acúmulo de memória, esse que é o problema. Então a gente vem aí com esse grupo, vem estudando como é que foi o processo de condicionamento nosso; a gente perceber esses condicionamentos e também não transferir esses condicionamentos como um adulto adulterante. Na observação desses condicionamentos, fica fácil de percebê-los e de não transferir de forma inconsciente e inconsequente — que foi exatamente o que acabou ocorrendo como esses, com essas pessoas significativas de nossa vida, que tentarão dar o melhor delas para nós, mas que não tinham consciência de que muito do que eles achavam que era educação, era na realidade abuso.

Nós ouvimos agora experiência do Luiz, com essa honestidade emocional e a gente percebeu: o outro está acreditando que está nos incentivando, quando na verdade, muitas vezes é abuso. Então, muito do que foi passado como educação, era um processo de abuso, que fragmenta; quero nos enche dessa vergonha tóxica que acaba contaminando tudo na nossa vida, não é?

Então, quando a gente está falando e a gente acaba citando algumas pessoas significativas da nossa vida, não é com o sentido, não é? — de criar aí uma caça às bruxas, ou satanizar essas pessoas. Não é nada disso! Até porque, eu hoje quando olho  em volta, eu percebo que a grande maioria dessas pessoas, desses adultos adulterados adulterantes, que foram pessoas psicologicamente significativas na minha vida, elas nem sequer chegaram a ter a possibilidade de se perceberem como pessoas adulteradas, profundamente adulteradas, que vieram de famílias muito mais disfuncionais, que vieram de eras e ambientes muito mais disfuncionais.

Então, quando a gente cita isso, é pra quem sabe facilitar a percepção, não é? O entendimento e, quem sabe, com essa identificação, um confrade sobe aqui e traz mais alguma coisa, e a gente consiga perceber mais uma parte desse processo, não é?

A gente costuma — eu tenho procurado dar o nome — só pra gente conversar, porque não há a ideia de organização nisso, mas, eu tenho dado o nome de “pensamentose descentralizante, não é? “Ose” quer dizer “doença”, então, a doença do pensamento (psicológico condicionado) que nos descentralizou; que nos descentraliza; que nos tira o foco; que nos tira o “sopro” (que nos habita e no qual somos); que nos tira o ritmo; que nos tirar a sensibilidade; que nos tirar esse senso de pertencer; que cria essa ilusão de separatividade, não é?

Então, a gente vem aí com esse grupo tentando traçar assim esse “processo”, como numa doença. Uma doença é caracterizada pelos sintomas de incubação, não é? os sintomas de manifestação, e a partir do momento que você vê isso há um processo de retomada de consciência — de cura. Esse material todo que está aí, ele aponta justamente para um “processo de resgate dá consciência que somos”; ele aponta pra isso; ele aponta pra percepção desses condicionamentos. O que a gente vem falando, é que é um processo “ego-conhecimento”: a gente vai nesse processo de ego-conhecimento, ou seja, conhecendo as manifestações desse “ego”, a maneira como que ele funciona e, através disso, quem sabe, a gente tem essa experiência de autoconhecimento, ou seja, conhecer aquilo que realmente somos e não aquilo pelo qual nós somos criados para acreditar que somos: esse personagem, não é? De um script aí, muito maluco.

Então, é isso aí gente! Eu vou me despedindo de vocês aí, deixando um forte abraço fraterno aí pra vocês; chutes nas canelas bem fortes aí, para vocês pularem bastante aí, e ver se cai dos ossos, os possíveis condicionamentos que estão impedido de ver e de sentir aí, o que que vem a ser a verdadeira liberdade de espírito humano. Está bom, gente? Beijo no coração de todos e vou colocar uma música que da Mariza monte aqui, pra vocês aí, “tá bom?” Beijão aí!

Outsider

A verdade não lhe pertence, nem a mim

Você não pode achar a verdade por intermédio de ninguém. Como o pode? A verdade, de certo, não é uma coisa estática; não tem morada fixa; não é um fim, um alvo. Pelo contrário, é viva, dinâmica, ativa, cheia de vitalidade. Como pode ser um fim? Se a verdade fosse um ponto fixo, não seria a verdade; seria mera opinião. Senhor, a verdade é o desconhecido, e a mente que procura a verdade a verdade nunca a achará. Porque a mente está constituída do conhecido, é resultado do passado, produto do tempo — e isso pode observar por si mesmo. A mente é o instrumento do conhecido e, por consequência, não pode achar o desconhecido; só pode mover-se do conhecido para o conhecido. Quando a mente procura a verdade, a verdade que leu nos livros, essa “verdade” é uma auto-projeção; porque em tal caso, a mente apenas está em busca do conhecido, um conhecido mais agradável do que o anterior. Quando a mente procura a verdade, está em procura de sua própria projeção, e não da verdade. Afinal de contas, todo ideal é auto-projeção; é fictício, irreal. O que existe é o que é, e o oposto não existe. Mas uma mente que busca a realidade, que busca a Deus, está em busca do conhecido. Quando você pensa em Deus, seu Deus é “projeção” do seu próprio pensamento, resultado de influências sociais. Só se pode pensar no conhecido; você não pode pensar no desconhecido; não pode se concentrar na verdade. No momento em que pensa no desconhecido, ele não é mais que o conhecido, de você mesmo projetado. Assim, Deus, ou a verdade, não podem ser pensados. Se você pensa nela, não é a verdade. A verdade não pode ser procurada; ela vem a nós. Só podemos procurar o que é conhecido. Quando a mente não é torturada pelo conhecido, pelos efeitos do conhecido, só então a verdade pode revelar-se. A verdade se encontra em cada folha, em cada lágrima; ela tem de ser conhecida de momento a momento. Ninguém pode lhe levar à verdade; e se alguém lhe guia, só pode levar-lhe ao conhecido.

A verdade só pode manifestar-se na mente que está livre do conhecido. Ela surge num estado em que o conhecido está ausente, não funciona. A mente é o depósito do conhecido, o resíduo do conhecido; e para que a mente esteja naquele estado no qual o desconhecido se manifesta, tem de estar cônscia de si mesma, de suas experiências anteriores, tanto conscientes como inconscientes, das suas respostas, reações, da sua estrutura. Quando há autoconhecimento completo, o conhecimento termina, e a mente fica completamente vazia do conhecido. Só então a verdade pode vir até você, sem ter sido chamada. A verdade não lhe pertence, nem a mim. Não podemos adorá-la. No momento em que a conhecemos, ela é irreal. O símbolo não é real, a imagem não é real; mas quando há compreensão do “eu”, desaparecimento do “eu”, desponta então a eternidade.

Jiddu Krishnamurti — O que estamos buscando?     



O aguçamento da percepção pelo observar da dor



Breve relato sobre a adicção livresca por conhecimento

Percepções sobre experiência, achismo e autoafirmação

Pode haver uma mente eterna?

Por que, inicialmente, a mensagem de K soa abstrata?

A empatia chega com a honestidade emocional

Sendo apenas um instrumento da mensagem

Sobre o entrave das palavras

27 de agosto de 2013

Sobre a urgência do autoconhecimento


Texto lido:

Rasgando o intelectual pacote de certezas emprestadas


Texto lido:

Percebendo as ilusões da mente


É possível a total libertação do eu?




Texto lido:


Que raio é que me impede de viver?



Texto lido:
http://pensarcompulsivo.blogspot.com.br/2013/08/o-entrave-da-cortina-de-palavras-do.html

26 de agosto de 2013

A experiência do abençoado estado

Todo pensamento e sentimento se desvaneceram deixando o cérebro imóvel e quieto... Desperto e sensível, o cérebro observava tudo sem reagir, sem experimentar; embora livre ainda de qualquer movimento interno, não estava insensibilizado ou drogado pela memória. De repente, a sublime presença daquela coisa singular sem impunha com toda a sua força, não apenas no mundo exterior, mas também nos mais íntimos recessos daquilo que antes fizera parte da mente. O pensamento tem seus limites, resultantes da reação; todo e qualquer motivo serve de molde ao pensamento e ao sentimento; a experiência vem do passado e o reconhecimento é sempre do conhecido. Mas, aquele abençoado estado não deixava marcas, pois sua forte, nítida e impenetrável presença tinha a intensidade da chama sem cinzas. O êxtase que vinha dali não deixava vestígios na memória, porquanto não havia o ato de experimentar. Ele simplesmente existia, em total liberdade, alheio à busca e às lembranças.
Não existe a possibilidade de o passado encontrar-se com o incognoscível; nada os poderia reunir; nenhuma ponte ou caminho nos permitirão conhecer aquela desconhecida benção. Jamais se deu o encontro de ambos, pois o passado deve simplesmente findar para que se revele o grandioso mistério daquela coisa singular.  

Jiddu Krishnamurti — 23 de janeiro de 1962


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