Aviso aos navegantes

Este blog é apenas uma voz que clama no deserto deste mundo dolorosamente atribulado; há outros e em muitos países. Sua mensagem é simples, porém sutil. É uma espécie de flecha literária lançada ao acaso, mas é guiada por mãos superiores às nossas. À você cabe saber separar o joio do trigo...

3 de julho de 2016

A vida não é uma loja de departamento

Recado ao Aprendiz de Samurai

O processo de retomada da Perene Consciência Amorosa Integrativa tem o seu início quando o indivíduo se sente farto de representar papéis sociais que não condizem com a realidade de sua Consciência. 

O processo se intensifica quando, em reação aos ditames desta Consciência, se vê assolado pelo bombardeio de imagens, memórias e monólogos mentais, que o infernizam numa atmosfera de culpa, desespero e auto-repugnância.

Este é um momento muito solitário pois o indivíduo "iniciante" ressente-se da mediocridade do meio em que se vê inserido, sendo que este se mostra absolutamente impossibilitado de compartilhar de seu atual estado de percepção.

É inevitável que, com este novo e ainda imaturo estado de percepção, o iniciante traga consigo um olhar ácido, rancoroso e sedento de retalhação, ainda que, na grande maioria dos casos, devido a profunda dependência emocional do meio (e por vezes física), não o sustente externá-las. 

De fato,  não é fácil estar-se vivo num ambiente onde, espiritualmente, a maioria se apresente num estado de morto-vivo. 

Somente quando o iniciante se percebe, não de modo intelectual, mas sim em suas mais profundas entranhas, a realidade de suas próprias circunstâncias, totalmente distanciadas da realidade do amor é que aceita "embarcar" em direção à mares conscienciais, nunca sequer imaginados de serem um dia navegados. 

Outsider

27 de junho de 2016

Morte, Integridade e Dependência Psicológica - Parte 3

Morte, Integridade e Dependência Psicológica - Parte 2

Morte, Integridade e Dependência Psicológica - Parte 1

As dependências nos mantêm como seres de segunda mão

Na progressão da Honestidade, a revelação do Eterno

A Verdade está para todos mas não para qualquer um

6 de junho de 2016

O absurdo do pecado original

[...] Disseram-lhe que você nasceu no pecado. Que estupidez! Que absurdo!

O homem não nasce no pecado, mas na inocência. Nunca houve nenhum pecado original, a única coisa que houve foi a inocência original. Toda criança nasce na inocência. Nós fazemos com que se sinta culpada – começamos a dizer: “Assim você não pode ser. Você deve ser deste modo.” E a criança é natural e inocente. Nós a castigamos por ser natural e inocente e a recompensamos por ser artificial e esperta. O inocente é condenado, o inocente é considerado quase como um sinônimo de criminoso. O inocente é considerado tolo, o esperto é considerado inteligente. O falso é aceito – o falso se encaixa na sociedade falsa.

Então, toda a sua vida não passa de um esforço para criar cada vez mais punições para si mesmo. E tudo o que você faz é errado; então você tem de se punir por todas as alegrias. Até mesmo quando a alegria vem – a despeito de você mesmo, lembre-se, quando a alegria vem a despeito de você, quando às vezes a Existência simplesmente se choca contra você e você não pode evitá-lo – imediatamente você começa a se punir. Algo deu errado – como isso pôde acontecer a uma pessoa horrível como você?

Na verdade, quando alguém o ama, você fica um tanto surpreso. “Quem...eu? Uma pessoa me ama?” A ideia surge na sua mente: “É porque ela não me conhece. É isso. Se vier a me conhecer, se me observar melhor, ela nunca me amará.” E assim os amantes começam a se esconder uns dos outros. Eles guardam muitos segredos, não abrem os seus segredos porque têm medo de que, no momento em que abrirem o coração, o amor irá desaparecer – porque não conseguem se amar, como podem imaginar que alguém os ama?

O amor começa com o amor por si mesmo. Não seja um narciso, não seja obcecado por si mesmo – mas o amor por si mesmo é um dever, um fenômeno básico. O amor só é possível quando existe uma profunda aceitação de si mesmo, do outro. A aceitação cria um ambiente em que o amor prospera, o solo em que o amor viceja.

Osho

4 de junho de 2016

O maravilhoso mistério chamado Vida

QUASE TODOS NÓS ESTAMOS APEGADOS a uma certa parte insignificante da vida, e pensamos que, através dessa parte, descobriremos o todo. Sem sairmos de nosso quarto, achamos que podemos explorar toda a extensão e toda a amplidão do rio e perceber a riqueza dos verdes prados que o margeiam. Vivendo em estreito aposento, pintamos uma pequena tela e pensamos ter "tomado a vida pela mão” e compreendido o significado da morte. Mas, tal não aconteceu. Para que aconteça, temos de sair para o ar livre. Mas é-nos extremamente difícil sair para o ar livre, deixar nosso pequeno aposento de estreita janela, para vermos as coisas como são, sem julgar, sem condenar, sem dizer "Disto eu gosto e daquilo não gosto” — porque a maioria de nós pensa que através da parte será possível compreender o todo. Examinando um raio, esperamos compreender a roda, não é verdade? São precisos muitos raios, e mais o cubo e o aro, para termos a coisa chamada "roda”; e precisamos ver a roda toda para podermos compreendê-la. Do mesmo modo, precisamos perceber o inteiro processo do viver, se realmente desejamos compreender a vida.

Espero estejais seguindo o que estou dizendo, porque a educação deve ajudar-vos a compreender o todo da vida, e não apenas preparar-vos para obter um emprego e seguir a rotina habitual — casamento, filhos, segurança, e vossos pequenos deuses. Mas, para suscitar a educação correta necessita-se de muita inteligência, discernimento, e por essa razão é tão importante que o próprio educador seja educado para compreender o processo total da vida, e não cuide meramente de ensinar-vos de acordo com determinada fórmula, velha ou nova.

A vida é um maravilhoso mistério — não o mistério de que falam certos livros ou certas pessoas, porém um mistério que cada um de nós tem de desvendar por si próprio. Eis porque tanto importa compreenderdes o que é pequeno, limitado, mesquinho, e passardes além.

Se não começais a compreender a vida desde jovens, crescereis muito feios, interiormente; sereis estúpidos e vazios, ainda que, exteriormente, tenhais dinheiro, andeis em carros de luxo e pareçais muito importante. Por isso é tão relevante que saiais de vosso quarto para ver a amplidão do firmamento. Mas, isso não podeis fazer se não tendes amor — não "amor físico’’ ou "amor divino’’, porém amor, puro e simples: amar os pássaros, as árvores, as flores, vossos mestres, vossos pais e, além do país, toda a humanidade.

Não será uma verdadeira tragédia se não descobrirdes, por vós mesmo, o que é amar? Se não conhecerdes o amor agora, nunca mais o conhecereis, porque, quando ficardes mais velhos, o que se chama "amor” será uma coisa muito feia — uma propriedade, uma espécie de mercadoria que se compra e vende. Mas, se começardes agora a ter amor no coração, se amardes a árvore que plantais, o cão vadio que afagais, então, quando crescerdes, não permanecereis no pequeno aposento de estreita janela, mas saireis para amar a totalidade da vida.


O amor é realidade; não é emoção, efusão de lágrimas; não é um sentimento. O amor, em si, é sem sentimentalismo. Este é um ponto muito sério e importante: que deveis amar enquanto estais jovens. Vossos pais e mestres talvez desconheçam o amor, e foi por esta razão que criaram um mundo terrível, uma sociedade perpetuamente em guerra contra si mesma e com outras sociedades. Suas religiões, suas filosofias e ideologias são todas falsas, porque sem amor. Eles só percebem uma parte; estão a olhar pela estreita janela, que poderá apresentar uma vista aprazível e extensa, mas que não é toda a amplidão da vida. Sem esse sentimento de intenso amor, não podeis ter a percepção do todo; por conseguinte, sereis sempre um ente digno de comiseração e, ao chegardes ao fim da vida, não tereis senão cinzas, um amontoado de palavras ocas.

Krishnamurti em, A cultura e o problema humano

Sobre a felicidade

A FELICIDADE NÃO VEM quando estais lutando para alcançá-la. Eis o grande segredo — embora isso seja muito fácil de dizer. Eu posso dizê-lo em poucas e simples palavras; mas, pelo simples fato de me escutardes e de repetirdes o que ouvis, não ides ser felizes. Coisa estranha, a felicidade: ela só vem quando a não buscais. Quando nenhum esforço estais fazendo para serdes feliz, então, inesperadamente, misteriosamente, surge a felicidade, nascida da pureza, da beleza do viver pleno. Mas isso exige muita compreensão, e não que ingresseis em alguma organização ou procureis tornar-vos alguém. A Verdade não é coisa conquistável. Surge quando vossa mente e vosso coração foram depurados de todo impulso de luta, e já não estais tentando tornar-vos alguém; ela está presente quando a mente está muito quieta, escutando, num plano atemporal, tudo o que se passa. Podeis escutar estas palavras, mas, para haver felicidade, deveis descobrir como libertar a mente de todo temor.

Enquanto tiverdes medo de alguém ou de alguma coisa, não pode haver felicidade. Não haverá felicidade enquanto temerdes vossos pais, vossos mestres, enquanto receardes não passar nos exames, não progredir, não poder aproximar-vos do Mestre, da Verdade, não merecer louvores, lisonjas. Mas se, realmente, nada temerdes, vereis então — ao despertardes uma bela manhã ou ao dardes um passeio a sós — acontecer de repente algo extraordinário: sem ser chamado, nem solicitado, nem procurado, aquilo a que se pode chamar Amor, Verdade, Felicidade, se manifesta subitamente.


Eis por que tanto importa que sejais educados corretamente enquanto estais jovens. O que atualmente chamamos educação não é de modo nenhum educação, porque ninguém vós fala dessas coisas. Vossos mestres preparam-vos para passardes nos exames, mas não vos falam sobre o viver. Os mais de nós conseguimos apenas subsistir, arrastar-nos de alguma maneira pela vida e, por isso, a vida se torna uma coisa terrível. O viver realmente exige abundância de amor, de sensibilidade ao silêncio, grande simplicidade a par de abundante experiência. Requer uma mente capaz de pensar com toda a clareza, não tolhida pelo preconceito ou a superstição, pela esperança ou o medo. Tudo isso é a vida, e se não estais sendo educados para viver, vossa educação é completamente sem significação. Podeis aprender a ser muito asseados, a ter boas maneiras, e podeis passar em todos os vossos exames; mas, dar importância primária a essas coisas, enquanto toda a estrutura da sociedade está a esboroar-se, é o mesmo que estar a limpar e a polir as unhas, com a casa a arder. Vede, ninguém vos fala sobre nada disto, ninguém examina nada, junto convosco. Assim como passais dias sucessivos estudando certas matérias — Matemática, História, Geografia — deveríeis, também, passar uma boa parte de vosso tempo falando sobre estes assuntos profundos, pois isso dá riqueza à vida.

Krishnamurti em, A cultura e o problema humano

Como ser um indivíduo?

Na sociedade, existe uma profunda expectativa de que você se comporte exatamente como todos os demais. No momento em que se comporta de forma um pouco diferente, você passa a ser um sujeito estranho, e as pessoas têm muito medo de estranhos.

As pessoas sempre querem participar de um grupo ao qual se ajustem.

Nesta sociedade, ninguém aceita a si mesmo. Todo mundo se condena. Esse é o estilo de vida da sociedade: condenar-se. E, se você não está se condenando, se está se aceitando do jeito que é, você tem que se afastar da sociedade.

E a sociedade não tolera ninguém que saiu do rebanho, porque ela vive de números; é uma política de números. Quando há muitos números, as pessoas se sentem bem. Números grandes fazem com que as pessoas sintam que tem de estar certas - elas não podem estar erradas, milhões de pessoas estão com elas. E, quando ficam sozinhas, grandes dúvidas começam a vir à tona: Ninguém está comigo. O que garante que estou certo?

É por isso que eu digo que, neste mundo, ser um indivíduo é o maior sinal de coragem.

Para ser um indivíduo, é preciso o mais destemido dos treinamentos: “Não importa que o mundo inteiro esteja contra mim. O que importa é que a minha experiência é válida. Eu não me importo com os números, com quantas pessoas estão comigo. Eu me importo com a validade da minha experiência — se estou simplesmente repetindo as palavras de outra pessoa, como um papagaio, ou se a fonte das minhas afirmações é a minha própria experiência. Se é a minha própria experiência, se isso é parte do meu sangue, dos meus ossos, do meu âmago, então o mundo inteiro pode pensar de outro jeito; ainda assim, eu estou certo e eles estão errados. Não importa, não preciso da aprovação deles para sentir que estou certo. Só aqueles que dependem das opiniões de outras pessoas precisam do apoio dos outros.

Mas é assim que a sociedade humana tem sido até agora. É assim que ela mantém você no rebanho. Se os outros estão tristes, você tem que ficar triste; se sofrem, você tem que sofrer. O que quer que eles sejam, você tem que ser também. Não se permitem diferenças, porque as diferenças acabam levando para o indivíduo, para o único, e a sociedade tem muito medo do indivíduo e da unicidade. Isso significa que alguém ficou independente do grupo, que essa pessoa não dá a mínima para o grupo. Seus deuses, seus templos, seus padres, suas escrituras, tudo ficou sem sentido para ela.

Agora ela tem seu próprio ser e seu próprio jeito, seu próprio estilo — de viver, morrer, celebrar, cantar, dançar. Ela chegou em casa.

E ninguém pode chegar em casa junto com a multidão. Só se pode chegar em casa sozinho.

(Osho)

2 de junho de 2016

A paz nasce no coração e não na mente

PENSO QUE, se pudermos compreender o que significa “estar em paz”, o que significa a paz, haverá a possibilidade de se compreender o verdadeiro significado do amor. Supomos que a paz é algo que se obtém com a mente, com a razão; mas pode a paz resultar de algum processo de quietação, de controle, de domínio do pensamento? Todos desejamos a paz. Para a maioria de nós, “paz” significa estar livre de importunação, de intromissões, cercar a nossa mente com uma muralha de idéias. Esta questão é de grande importância em nossas vidas; porque, ao vos tornardes mais velhos, tereis de encarar estes problemas concernentes à guerra e à paz. Será a paz algo que a mente deva perseguir, pegar, e domesticar? A paz, como em regra a entendemos, é um lento declínio; onde quer que estejamos, aparece a estagnação; pensamos, que se nos apegamos a uma ideia, se levantamos muralhas de segurança, de proteção, de hábitos, de crenças; se cultivamos um princípio, uma determinada tendência, uma determinada fantasia, um determinado desejo, encontraremos a paz. É o que quer a maioria: evitar canseiras e viver, sem esforço, numa condição qualquer de estagnação. Quando reconhecemos a impossibilidade de ter essa espécie de paz, forcejamos para conseguir paz, para encontrar algum canto no universo ou em nosso ser, para onde possamos arrastar-nos, e viver fechados na escuridão do “eu”. É isso o que queremos, em geral, nas relações com nossos maridos, nossas esposas, pais, amigos. Inconscientemente, queremos a paz a qualquer preço, e por isso a buscamos.

Pode a mente porventura encontrar a paz? A mente não é, ela própria, uma fonte de perturbação? A mente só é capaz de juntar, acumular, negar, afirmar, lembrar e seguir. Será a paz, que é tão essencial — porque sem ela não se pode viver, não se pode criar — será à paz algo realizável por meio de lutas, de renúncias, de sacrifícios espirituais? Compreendeis o que estou dizendo? Quando nos tornarmos mais idosos, se não formos sensatos e não nos conservarmos vigilantes, — ainda que agora, na juventude, tenhamos descontentamento, esse descontentamento se canalizará para alguma forma de pacata resignação diante da vida. A mente está sempre procurando criar, em alguma parte, algum hábito, crença ou desejo, onde possa viver isolada e em paz com o mundo. Mas ela não pode achar a paz, porque só é capaz de pensar dentro dos limites do tempo — seu passado, seu presente, seu futuro — o que foi, o que é, e o que será — sempre condenando, e julgando, e pesando, alimentando suas próprias vaidades, hábitos e crenças. A mente nunca pode estar em paz, ainda que às vezes se refugie numa paz ilusória. Mas isso não é paz. Ela pode hipnotizar-se com palavras, com a repetição de frases, com o seguir meramente a alguém, com o saber; mas não se mantém em paz, porque ela mesma é o centro de atração, e, por sua própria natureza, a essência do tempo. Assim, a mente, com que pensais, com que calculais, com que planejais, com que comparais, não pode encontrar a paz.

A paz não é produto da razão; e, todavia, se observais as religiões organizadas que conheceis, vereis como todas elas preconizam a paz que é produto do pensamento. Mas a paz é algo tão criador quanto a guerra é destrutiva, tão pura quanto a guerra é corruptora; e para termos essa paz, precisamos compreender a beleza. Eis porque tanto importa que, na juventude, estejamos rodeados de beleza, a beleza dos edifícios, das proporções harmônicas, da exata apreciação, do asseio, da lúcida conversação — de modo que, compreendendo o que é belo, saibamos o que é o amor, e que a beleza do coração é a paz do coração.

A paz nasce no coração e não na mente. Cumpre, pois, compreender o que é a beleza. Muito importa a maneira como falais; porque as palavras que empregais, os gestos que fazeis, revelam o grau de excelência do vosso coração. Porque a beleza é algo indefinível, inexplicável. Só podemos chamá-la ou compreendê-la com o espírito tranquilo.

Assim, quando jovens e sensíveis, é essencial que crieis — tanto vós como os responsáveis pela mocidade, pelos estudantes — é essencial criardes essa atmosfera de beleza. A maneira de vestir, a maneira de sentar-se, a maneira de falar e comer, tanto quanto as coisas que nos circundam, são de grande importância. Porque, ao crescerdes, ireis encontrar todas as fealdades da vida — edifícios feios, gente feia, malícia, inveja, ambição, crueldade — e, se não houver nos vossos corações o sentimento da beleza, solidamente alicerçado em vós mesmos, podeis ser facilmente arrastados pela monstruosa correnteza da vida; e ver-vos-eis empenhados na luta pela obtenção da paz que é produto da mente. A mente cria a ideia da paz, procura cultivar essa ideia e fica emaranhada na rede das palavras, das fantasias, das ilusões.


A paz, por conseguinte, só poderá vir ao compreendermos o que é o amor. Porque, se temos a paz unicamente na segurança, financeira ou de outra natureza, a paz proporcionada pelo dinheiro ou por certos dogmas, ritos e repetições, não existirá criação; não existe em nós nenhum impulso para realizarmos no mundo uma revolução fundamental, radical; porque essa paz só significa estagnação e resignação. Mas, quando compreenderdes a quietude em que existe amor e beleza, compreenderdes a sua extraordinária originalidade, tereis então essa paz — aquela que a mente não pode alcançar. Eis a paz criadora, a que implanta a ordem dentro em nós, dissipando toda confusão. Mas essa serenidade não resulta de esforço nenhum. Manifesta-se quando estamos em constante vigilância, sensíveis tanto para o feio como para o belo, para o bom e para o mau, para todas as vibrações da vida. Porque a paz é uma coisa de rara grandiosidade e extensão, e não uma frivolidade da imaginação. Ela só pode ser compreendida com a plenitude do coração.

Krishnamurti em, Novos Roteiros em Educação

Desconhecemos a realidade do Amor

Falemos agora um pouco do amor, sobre o que significa, e vejamos se atrás desta palavra, que tanta significação tem para nós, se atrás desta palavra e deste sentimento se oculta também aquele peculiar elemento de apreensão, de ansiedade, essa coisa que as pessoas adultas conhecem pelo nome de solidão. Falemos, pois, a respeito da palavra e do sentimento chamado amor.

Sabeis o que é amor? Sabeis como se acha o amor? Amais os vossos pais? Sabeis amar vosso pai, vossa mãe, vosso tutor, vosso mestre, vossa tia, vosso marido ou vossa esposa? Sabeis o que tal significa? Quando digo “amo os meus pais”, que exprime isso? Significa que nos sentimos protegidos na companhia deles, que estamos acostumados com eles? Verificai, enquanto falo, se o que digo se aplica à vossa pessoa e ao amor a vossos pais. Pensais que vossos pais vos estão protegendo, dando-vos dinheiro, teto, vestuário e alimentos, e tendes também o sentimento de estardes numa relação íntima com eles — não é verdade? Além disso, achais que podeis confiar neles. Eu não sei se confiais neles, mas vós o achais. Compreendei a diferença. Achais que podeis confiar, mas isso pode não ser bem exato; provavelmente não falais com eles tão desembaraçada e despreocupadamente como falais com os vossos amigos. Todavia, vós os respeitais, significando isso que os acatais, que eles mandam e vós obedeceis, que tendes o sentimento de uma certa responsabilidade perante eles, quando fordes maiores e eles estiverem velhos. Eles, por sua vez, vos amam e desejam ajudar-vos — pelo menos dizem que o desejam. Desejam ver-vos casados, para viverdes uma “vida moral”, como se costuma dizer, para que tenhais um marido que vos proteja, ou uma esposa que cuide de vós, cozinhe para vós e tome conta das crianças. Isso é o que se chama amor.

Não podemos averiguar se isso é o verdadeiro amor, porquanto o amor não se pode explicar por meio de palavras. Não é algo que vos venha com facilidade. É muito mais complexo e não é facilmente compreensível. Sem ele, a vida é estéril; sem ele, as árvores, os pássaros, o sorriso de homens e mulheres, a ponte sobre o rio, os barqueiros, os animais, nenhuma significação têm. Sem ele, a vida se torna superficial, sem profundidade. Sabeis o que significa a vida “sem profundidade”? Quer dizer que ela se torna como uma poça d’água. Num rio profundo podem viver muitos peixes e há muitas riquezas. Mas a poça d’água que vemos à beira da estrada seca rapidamente sob o sol ardente, e nada resta senão lodo e sujidade.

O amor, em regra, é uma coisa bem difícil de compreender. Porque, geralmente, ele é para nós algo “sem profundidade”. Atrás da palavra “amor” está emboscado o medo. Desejamos ser amados e, também, desejamos amar. Não é, portanto, de suma importância que cada um de nós cuide de averiguar o que é esta coisa extraordinária? Só o podereis averiguar, se estiverdes cônscios de como olhais os entes humanos, as árvores, os pássaros, os animais, o homem que tem fome, e também os vossos amigos, se os tendes, vossos gurus, vossos pais. Quando dizeis “amo meu pai, minha mãe, meu tutor, meu mestre”, que significa isso? Quando sentis reverência por alguém, quando achais que é vosso dever obedecer-lhe, e a pessoa também julga que deveis prestar-lhe obediência — isso é amor? Compreendeis o que estou dizendo? Quando olhais para alguém com acatamento, quando respeitais enormemente essa pessoa, isso é amor? Se venerais uma criatura, desprezais outra. Não é exato isso? Isso é amor? Ao sentirdes que deveis obedecer, que tendes um dever, isso é amor? Pode o amor ser uma coisa em que haja apreensões, em que haja inclinação para respeitar ou desprezar, em que haja obediência a alguém?

Dizendo amar alguém, não estais na dependência dessa pessoa? É justo que, enquanto jovens, dependais de vosso pai, vossa mãe, vosso mestre, vosso tutor. Porque sois jovens, precisais de quem cuide de vós, necessitais de roupas, de morada de proteção. Na juventude, necessitais sentir que sois mantidos juntos, que alguém vela por vós. Mas, ainda depois de velhos, esse sentimento de dependência continua, não é verdade? Já o não notastes nos entes mais idosos, nos vossos pais, nos vossos mestres? Já não notastes como dependem de suas esposas, de seus filhos, de suas mães? Muitos continuam, depois de adultos, a apegar-se a alguém, a sentir a necessidade de dependência. Se não têm o amparo alheio, se não são guiados por alguma pessoa, se não têm um sentimento de conforto e segurança junto a outrem, sentem-se solitários, não é assim? Sentem-se perdidos. A dependência de outra pessoa chama-se amor, mas, se observardes atentamente, vereis que toda dependência significa temor, e não amor. Porque têm medo de estar sós, medo de pensar nas coisas por si próprios, medo de sentir, observar, descobrir o integral significado da vida, sentem que amam a Deus. Por conseguinte, dependem disso que chamam Deus. Mas uma coisa criada pela mente não pode servir-nos de arrimo; não é Deus, não é o desconhecido. O mesmo acontece com relação a uma idéia, uma crença. Creio numa coisa, e essa crença me proporciona grande conforto; amo esse ideal e me conservo fiel a ele. Mas, tirai-me o ideal, tirai-me a crença e minha dependência dela, e vejo-me perdido. Igualmente, tal se verifica se tenho um guru. Estou na sua dependência, espero algo dele; existe, pois, um temor, uma ânsia. E o fato se repete quando dependeis de vossos pais ou mestres. É justo que o façais enquanto jovens; mas, se continuardes nessa dependência depois de adultos, ela vos tornará incapazes de pensar, de ser livres. Onde há dependência, há também temor, e havendo temor, há a autoridade; não há amor. Quando vossos pais vos mandam fazer algo, cumpre obedecer. Tendes de seguir certas tradições, aceitar certos empregos, ter certas ocupações. Em nada disso há amor. E ao dependerdes da sociedade, aceitando-lhe a estrutura tal como é, isto não é amor, porque a sociedade está corrompida. Não é preciso investigar muito para verificar esse fato. Percorrei uma rua, e vede quanta pobreza, quanta abjeção e miséria existem.

O homem ambicioso, a mulher ambiciosa, não sabem o que é o amor; e nós somos governados por ambiciosos. É por isso que não existe felicidade no mundo. É muito importante que, enquanto cresceis, percebais bem isso e vos esclareçais para o descobrimento dessa coisa que se chama amor. Podeis ter uma casa bem rica, um jardim maravilhoso, uma boa posição, muitos vestidos e roupas, um bom emprego; podeis ser, o todo-poderoso Primeiro Ministro; mas, sem o amor, são vãs todas essas coisas.

Por conseguinte, o que deveis fazer agora — e não quando fordes mais velhos, porque então nunca descobrireis nada — é averiguar como é que amais os vossos pais, ou o vosso guru; deveis descobrir a significação de tudo isso, e não aceitar meramente uma palavra; pois impende esclarecer bem as palavras, para ver se atrás delas se oculta alguma realidade — sendo realidade aquilo que sentis verdadeiramente e não o que supondes sentir: sentir a realidade do ciúme quando tendes ciúme, a realidade da cólera se tendes cólera. Quando dizeis “não devo ser ciumento”, isso é apenas uma variante do desejo, sem nenhum significado. Se fordes suficientemente honestos para com vós mesmos, de modo que possais descobrir com toda a exatidão e clareza o vosso sentimento, o vosso verdadeiro estado — não o vosso estado ideal: como deveis agir, como deveis sentir numa data futura, mas o que efetivamente sentis neste momento — há então a possibilidade de modificá-lo. Mas o dizer “preciso amar meus pais, preciso amar meu guru, preciso amar meu mestre” nada significa, não é verdade? Porque na realidade sois bem diferentes; dizeis uma porção de palavras, e ficais escondidos atrás delas. Não é, pois, próprio da inteligência averiguar o que existe atrás das palavras, atrás da acepção comum das palavras? Palavras tais como “dever”, “responsabilidade”, “Deus”, “amor”, adquiriram muita significação tradicional; mas o homem que é inteligente, verdadeira e profundamente instruído, procura saber o que existe atrás das palavras. Se, por exemplo, eu vos dissesse que não creio em Deus, ficaríeis extraordinariamente chocados, não é verdade? Diríeis: “Credo, que ideia horrorosa!” Vós credes em Deus, não? Pelo menos, pensais que credes. Isto tem pouca significação — vossa crença ou descrença.

O importante é elucidar a palavra, a palavra que chamais amor, para verdes se de fato amais os vossos pais e se vossos pais vos amam deveras. Porque se amásseis realmente os vossos pais, ou vossos pais vos amassem, outro seria o mundo. Não haveria guerras, não haveria divergências de classes, nem ricos e pobres. Sem esta coisa denominada amor, podeis fazer tudo para ajustar a sociedade economicamente, em bases justas, mas nunca conseguireis criar uma estrutura social isenta de conflito e de sofrimento. Por conseguinte, cumpre examinar tudo isso atentamente; e então, talvez, descobrireis o que é o amor.

Krishnamurti em, Novos Roteiros em Educação