Aviso aos navegantes

Este blog é apenas uma voz que clama no deserto deste mundo dolorosamente atribulado; há outros e em muitos países. Sua mensagem é simples, porém sutil. É uma espécie de flecha literária lançada ao acaso, mas é guiada por mãos superiores às nossas. À você cabe saber separar o joio do trigo...

29 de dezembro de 2012

Andando na corda bamba da Liberdade




Eu não sou contra as regras, mas as regras deveriam ser fruto do entendimento. Elas não deveriam ser impostas. Eu não sou contra a disciplina! Mas a disciplina não deveria ser escravidão. Toda verdadeira disciplina é autodisciplina. E a autodisciplina nunca vai contra a liberdade — na verdade, ela é a escada para a liberdade. Só as pessoas disciplinadas se tornam livres, mas a disciplina delas não é obediência aos outros; é obediência à própria voz interior. E elas estão prontas para arriscar qualquer coisa pela liberdade.

Deixe a sua própria percepção determinar o seu estilo de vida, o seu padrão de vida. Não deixe que ninguém determine isso por você. Isso sim é um pecado, deixar que outra pessoa decida por você. Por que é pecado? Porque você nunca estará na sua vida. Ela ficará superficial, será hipócrita.

Uma pessoa de percepção não é controlada nem pelo passado nem pelo futuro. Você não tem ninguém forçando-o a se comportar de uma determinada maneira. Os Vedas não estão mais na sua cabeça, Mahavira e Maomé e Cristo não estão mais obrigando você a seguir em nenhuma direção. Você está livre. É por isso que na Índia chamamos uma pessoa assim de mukta. Mukta significa uma pessoa totalmente livre. Ela é liberdade.

Neste momento, seja qual for a situação, a pessoa responde com plena atenção. Essa é a sua responsabilidade. Ser capaz de responder. A sua responsabilidade não é uma obrigação, é uma sensibilidade ao momento presente. O significado da responsabilidade muda. Não é responsabilidade com sentido de obrigação, de dever, de um fardo, de algo que tem de ser feito. Não, responsabilidade é só uma sensibilidade, um fenômeno semelhante a um espelho. Você fica diante do espelho e o espelho reflete, responde. Seja o que for que aconteça, a pessoa de percepção responde com todo o seu ser. Ela não se prende ao passado; é por isso que nunca se arrepende, é por isso que nunca sente culpa; tudo o que podia ser feito, ela fez, concluiu. Ela vive cada momento total e completamente.

Na sua ignorância, tudo fica incompleto. Você não concluiu nada. Milhões de experiências estão dentro de você, esperando por uma conclusão. Você queria rir, mas a sociedade não permitia. Você reprimiu o riso. Essa risada aguarda ali como uma ferida. Que estado deplorável! Até a risada vira uma ferida! Quando não o deixam rir, a risada se torna uma ferida, uma coisa incompleta dentro de você, esperando algum dia ser concluída.

Você amou alguém, mas não conseguiu amar totalmente, o seu caráter proibiu esse amor, a voz da sua consciência não o permitia. Até mesmo quando você está com o seu amor numa noite escura, sozinhos no seu quarto, a sociedade está presente. Vocês são constantemente vigiados. Não estão sozinhos. Você tem uma voz da consciência, a pessoa amada tem uma voz da consciência: como podem ficar sozinhos? Toda a sociedade está ali, toda a praça do mercado está ali, ao redor de vocês. E Deus, olhando lá de cima, observando vocês, olhando o que estão fazendo, ele parece um abelhudo universal, um voyeur — fica observando as pessoas. A sociedade usa os olhos de Deus para controlar você, para torná-lo um escravo. você não pode nem amar totalmente, não pode odiar totalmente, não pode se zangar totalmente. Você não pode ser total em nada.

Você come sem entusiasmo, caminha sem entusiasmo, ri sem entusiasmo. Não pode chorar — você está segurando milhões de lágrimas nos olhos. Tudo é um fardo, uma carga pesada; todo o seu passado, você está carregando desnecessariamente. E esse é o seu caráter.

Um buda não tem caráter, porque ele é fluido, porque é flexível. Caráter significa inflexibilidade. É como uma armadura. Ela protege você de certas coisas, mas depois o mata, também.

Osho - O Livro da sua Vida

Áudio: Onde há medo, há agressão

Link para o texto de Krishnamurti, lido no início da reunião pelo Paltalk:

28 de dezembro de 2012

Mensagem de fim de ano

Resgate Seus Valores
Não é de hoje que o mundo esta mudando cada vez mais rápido
Vivemos numa era onde o que é novo pode se tornar obsoleto amanhã
Uma era onde as grandes transformações acontecem a mais de 100 mil kbytes por segundo mesmo quando estamos OFF
As mudanças climáticas estão aumentando e prever o futuro ficou quase tão incerto quanto tentar adivinhá-lo.
O transito está caótico e chegar primeiro ficou mais importante que chegarmos juntos
Não existe mais dialogo
Buzinar virou mais importante que falar
Estamos compartilhando individualidade ao invés de solidariedade
Vivemos numa era onde 24 horas é pouco para respondermos todos os emails que recebemos
Nossas redes sociais e nossos amigos agora são virtuais.
Antes vivíamos conectados a terra, ao mato, ao vento, a água ou simplesmente as coisas que nos fazem bem.
Agora estamos apenas conectados a INTERNET.
Será que é essa a evolução da humanidade?
Aquilo que vai nos levar adiante?
On ou Off, O que devemos ser?
De que lado devemos estar?
Pedir licença, por favor, falar obrigado, você primeiro e desculpe é OFF
Dizer Ola ou as vezes não dizer nada é ON
Prazer em reunir amigos, juntar a turma e compartilhar experiências é OFF
Enviar mensagens prontas e curtir fotos de desconhecidos é ON
Jogar bola, andar de skate, conhecer pessoas, se aventurar é OFF
Viver o tempo todo dentro do escritório e não sai do quarto é ON.
On ou Off, de que lado você está?
Está é uma das poucas respostas que você não vai encontrar no Google
É preciso parar para pensar, afinal é muito dificil saber como vai ser o futuro quando você não tem a menor idéia do que está acontecendo no presente.
É hora de reiniciar o seu jeito de olhar o mundo.
Que o mundo pode ser igual, mas diferente
Não adianta você querer a sustentabilidade sem ser sustentável
De que lado você está?
O consumo inconsciente pode ser evitado
O que você tem demais muitos ainda nem conhecem
O desperdicio deve ser combatido
O colapso econômico do planeta não se resolve com a elevação das suas contas, mas talvez com retorno às suas origens humildes, sinceras, despretenciosas, colaborativas e auto produtivas.
On ou Off, de que lado você está?
Esta passando a hora de se ligar
Plante o bem para colher o bem
Onde se planta tem vida
Temos que ficar com o planeta e respirar o mesmo ar
Temos que deixar filhos melhores para que tenhamos netos melhores
Sustentabilidade é isso, saber se desligar na hora certa e respeitar o meio ambiente, viver em comunidade e para a comunidade.
As melhores idédias do mundo, são as melhores idéias para o mundo
LEMBREM-SE: Não existem flores sem sementes e o mundo está ficando carente de gentileza
A intolerância esta gerando intolerância
Somos capazes de reclamar uns dos outros mas não somos capazes de responder a uma indelicadeza com um sorriso.
Senão mudarmos, o mundo não muda
On ou Off, de que lado você está?
O mundo está mudando muito rápido
Ou corremos agora, ou iremos correr atrás
Conecte-se a um novo futuro para o planeta
Nunca deixe que ELE desligue.

27 de dezembro de 2012

Filme: O voo

Título no Brasil: O voo
Título Original: Flight
País de Origem: EUA
Gênero: Drama
Tempo de Duração: 138 minutos
Ano de Lançamento: 2012
Estreia no Brasil: 08/02/2013
Estúdio/Distrib.: Paramount Pictures
Direção: Robert Zemeckis

Sinopse: Piloto salva avião de batida, mas uma investigação dos acontecimentos vai revelar algo preocupante.

Áudio: Compreendendo a desordem dentro de si mesmo

Link do tema lido: http://pensarcompulsivo.blogspot.com.br/2012/12/compreendendo-desordem-dentro-de-si.html

26 de dezembro de 2012

Filme: UPSIDE DOWN

Sinopse: Adam é um homem comum vivendo em um mundo extraordinário. Trabalhador desajeitado, ele levou uma vida humilde, e tenta encarar as despesas. Um dia, porém, enquanto mudava de canal, apareceu na tela uma bela jovem. Seu coração disparou. Era Eve, o grande amor de sua juventude. Ele havia se encontrado com ela secretamente no passado quando visitou o "mundo de cima." Um mundo bizarro em que a gravidade era invertida, inacessível e inatingível para alguém como ele, um pobre coitado do "mundo de baixo".
Contudo, depois de ter visto a moça na TV, ele resolve encontrá-la e tentar viver uma paixão. Acontece que existem leis que separam esses mundos e tudo irá contra os sonhos de Adam. Mas, parece que nada pode pará-lo, nem mesmo as leis da ciência! Um filme repleto de arquétipos!
Gênero: Drama/Ficção/ Romance
Título Original Upside Down
Diretor Juan Diego Solanas
Roteirista Santiago Amigorena / Juan Diego Solanas
Elenco:
Kirsten Dunst (No papel de Eve)
Jim Sturgess (No papel de Adam)
Holly O'Brien (No papel de Paula)
Vincent Messina (No papel de Tommy)

9 de dezembro de 2012

A beleza da margem, malucos de estrada



DESCRIÇÃO
Para compartilhar, use este link: http://www.mobilizefb.com/malucosdeestrada

Imagine a oportunidade de mostrar num filme um modo de viver que poucos conhecem e capaz de inspirar tanta gente!

Sonhos, arte, poesia, cooperação, liberdade, revolução, desapego, igualdade, lutas... Sentimentos e ações que muitas vezes reprimimos em razão dos padrões sociais pré-estabelecidos, mas que são vividos intensamente por homens e mulheres que botaram uma mochila nas costas e o pé na estrada. Mas quem são eles? Como vivem? No que acreditam?

O filme “Malucos de estrada: a reconfiguração do movimento hippie no Brasil” é uma iniciativa inédita que busca esclarecer a sociedade sobre a riqueza de valores deste universo cultural e colocar em discussão o atual processo de repressão que os artesãos vêm sofrendo.

A urgência e relevância em lançar luz sobre esta cultura é que sua sobrevivência e integridade estão seriamente ameaçadas pela invisibilidade social e por certo desconhecimento por parte dos gestores públicos sobre esta realidade.

Acreditamos que este documentário será o ponto de partida para o amplo reconhecimento do maluco de estrada como manifestação cultural específica. Este será um filme lançado pela internet com livre acesso para que se converta num produto da sociedade.

Esse movimento é sobretudo uma luta para que vivamos de fato numa sociedade democrática que conviva com as diferentes visões, interesses e saberes, potencializando ao máximo o bem-estar coletivo.

Faça parte desta iniciativa conosco! Contribua para realização do filme e compartilhe nossa página http://www.mobilizefb.com/malucosdeestrada



Assista o nosso primeiro documentário, lançado em 2011 e visto por mais de 200 mil pessoas:
"A criminalização do artista - como se fabricam marginais em nosso país"

Ficha Técnica:

Realização Coletivo Beleza da Margem

Direção: Rafael Lage
Produção: Cyro Almeida
Ass. de produção: Ariane Soares
Câmera: Barnabé, Douglas Resende, Gustavo Policarpo, Moacir Gaspar, Wesley Hudson
Edição de som: Nelson Pombo
Edição de imagem: Flávio Charchar

4 de dezembro de 2012

O caminho da iluminação através do ócio



É  a arte mais simples do mundo, ficar em silencio. Não é um fazer, é um não-fazer. Como isso pode ser difícil?...

Estou lhe mostrando o caminho da iluminação através do ócio. Nada tem de ser feito para atingi-la, porque ela é a natureza. Você a possui. A questão é que está tão ocupado com assuntos externos que não consegue ver a sua própria natureza.

Bem lá no fundo de você existe exatamente o mesmo que existe fora de você — a beleza, o silencio, o êxtase, a bem-aventurança. Mas, por favor, algumas vezes seja gentil consigo mesmo: simplesmente sente-se e não faça coisa alguma, física ou mentalmente. Relaxe, não de um modo americano...porque tenho visto muitos livros americanos intitulados Como relaxar. O próprio título demonstra que o homem não sabe nada sobre relaxamento. Não existe nenhum “como”.

Sim, tudo bem...Como consertar um carro...isso exigirá que você faça alguma coisa. Mas não há nenhum fazer no que diz respeito ao relaxamento. Simplesmente não faça coisa alguma. Sei que no inicio você achará um pouco difícil. Não porque o relaxamento seja difícil. Mas porque você está viciado em fazer alguma coisa. Levará um pouco de tempo para esse vício desaparecer.

Apenas seja, e observe. Ser é não-fazer, e observar também é não-fazer. Você se senta em silencio sem fazer coisa alguma, testemunhando o que esteja acontecendo. Os pensamentos passarão por sua mente; seu corpo pode sentir uma tensão em algum ponto, e talvez você tenha uma enxaqueca. Seja apenas uma testemunha. Não se identifique com isso. Observe, seja um observador nas colinas, quando tudo mais está acontecendo no vale. Essa é uma habilidade, não uma arte.

A meditação não é uma ciência, não é uma arte, é uma habilidade — apenas isso. Tudo o que você precisa é de um pouco de paciência.

Os velhos hábitos permanecerão; os pensamentos continuarão a passar velozmente. E a sua mente está sempre na hora do rush, o tráfego está sempre congestionado. Seu corpo não está acostumado a se sentar em silencio — você ficará se remexendo... Não há nada com o que se preocupar. Apenas observe que o corpo está inquieto, que a mente está girando, está cheia de pensamentos — consistentes, inconsistentes, inúteis —, fantasias, sonhos. Você permanece no centro, simplesmente observando.

Todas as religiões do mundo ensinaram as pessoas a fazerem alguma coisa: interrompa o processo do pensamento, force o corpo a ficar imóvel. A ioga é isso — um longo treinamento para forçar o corpo a ficar imóvel. Mas um corpo forçado não pode ficar sossegado. E todas as preces, concentrações e contemplações de todas as religiões fazem o mesmo com a mente: forçam-na, não permitem o fluxo dos pensamentos. Sim, você tem a capacidade de fazer isso. E, se persistir, conseguirá interromper o processo do pensamento. Mas essa não é a coisa verdadeira, é totalmente falsa.

Quando a imobilidade vem por conta própria, quando o silencio desce sem o seu esforço, quando você observa os pensamentos e chega um momento em que estes começam a desaparecer e o silencio começa a acontecer, isso é belo. Os pensamentos param por conta própria se você não se identificar, se permanecer como testemunha e não disser: “Esse é o meu pensamento”.

Você não diz:   Isso é ruim, isso é bom” , “Isso deveria estar aí...Isso não deveria esta aí.” Assim, você não seria um observador: você tem preconceitos, você tem certos posicionamentos. Um observador não tem preconceitos, não faz nenhum julgamento. Ele simplesmente vê como um espelho.

Quando você traz algo para diante de um espelho, ele o reflete; só reflete. Não há nenhum julgamento de que o homem é feio, de que o homem é bonito, como: “Ah! Que nariz bonito você tem!” O espelho não tem nada a dizer. Sua natureza é refletir; ele reflete. É isso que eu chamo de meditação: você simplesmente reflete tudo de dentro ou de fora.

E eu lhe garanto...posso garantir porque aconteceu comigo e com muitos do meu povo; apenas observe pacientemente — talvez se passar sem alguns dias, talvez alguns meses, talvez alguns anos. Não há como dizer, porque cada pessoa tem uma bagagem diferente.

Você deve ter visto pessoas colecionando antiguidades, selos...Todos têm uma coleção diferente; a quantidade pode ser diferente, por isso o tempo que leva será diferente —  mas continue a ser testemunha o máximo que puder. E essa meditação não precisa de um momento especial. Você pode lavar o chão e permanecer silenciosamente se observando lavar o chão.

Posso mover minha mão inconscientemente, sem observar, ou posso movê-la com plena consciência. E há uma diferença qualitativa. Quando você a move inconscientemente, isso é mecânico. Quando a move com consciência, existe graciosidade. Se até mesmo na mão, que é uma parte do seu corpo, você experimentará silêncio, tranqüilidade — o que dizer da mente?

Com seu contínuo observar, pouco a pouco o fluxo dos pensamentos começa a ficar cada vez menor. Momentos de silêncio começam a aparecer; um pensamento vem e, depois, há silêncio antes que apareça outro pensamento. Esses intervalos lhe darão o primeiro vislumbre da meditação e a primeira alegria por estar chegando em casa.

Osho

3 de dezembro de 2012

A alegria através do outro é momentânea


Se a vida transcorrer naturalmente, belamente, se não houver professores negadores da vida, se não houver políticos e sacerdotes para aturdi-lo — então, quando você tiver por volta de 42 anos de idade, exatamente como vem a maturidade sexual, vem a maturidade da meditação. Por volta dos 42 anos a pessoa começa a se tornar introvertida. Por volta dos 14 anos, ela começa a se voltar para os outros, torna-se extrovertida. Amor é extroversão; relacionamento é pensar no outro. Meditação é introversão; meditação é pensar no próprio ser, no próprio centro.

Entre as idades de 14 e 42 anos, ocorre uma mudança. A pessoa vai vivendo, aprende o que é o amor, conhece seu prazer e sua frustração, sua alegria e sua tristeza, sua beleza e sua fealdade — ela sabe que há momentos de grande êxtase e de grandes vales de trevas. Então ela começa, pouco a pouco, a se mover na direção do seu próprio ser, porque depender do outro nunca pode ser realmente extasiante. Se a sua alegria depender do outro, essa alegria jamais pode ter em si a qualidade da liberdade. E a alegria que não tem em si a qualidade da liberdade não é tão alegria assim. Se você depender do outro, há uma limitação. A alegria que vem através do amor é momentânea. Você pode encontrar-se com o outro apenas por momentos e, então, novamente, vocês se separam e se afastam. Justamente no meio desse encontro, se afastam. Unem-se apenas por momentos. E aí você começa a pensar: “Há um modo de se fundir à existência e nunca se separar dela novamente?”

Meditação é isso. Amor é unir-se à existência através de uma outra pessoa, apenas por momentos. Meditação é unir-se com a existência eternamente.

“Ioga” significa “união”. Isso tem de acontecer em algum lugar no âmago mais profundo. E então há alegria, e então há liberdade. E há bem-aventurança e não há vale algum de trevas depois. Assim, a felicidade e a celebração são eternas.


Osho

29 de novembro de 2012

Diálogo sobre tédio e estado de Presença

Deca: Oi!

Out: Oi!

Deca: Tudo bem?

Out: Tirando o vazio com sua manifestação de ansiedade, tudo bem.

Deca: Idem... Tédio, total falta de sentido.

Out: Percebo que a mente, diante do vazio, diante do tédio, diante da rotina, diante da falta de sentido, sugere situações externas — "aparentemente novas" —, como se na obtenção, na materialização dessa sugestões, passaríamos a ver, a vivenciar algo com real sentido.

Deca: Sim!

Out: São sugestões de distrações criadas pela mente para fazer frente ao estado que se apresenta, uma forma de fuga do que é. Há o observador observando, sentido tudo isso e percebendo sua limitação para transcender isso que se apresenta; a mente sugere que, talvez, através de algo tido por "superior", por algo de conteúdo "espiritual", alguma prática como a leitura de algo de mais conteúdo, possa ser eliminado esse estado que o observador observa e sente. De fato, como já faz parte da experiência do observador, tal leitura, tal escuta, distrai momentaneamente do barulho da mente, mas, passada sua ação, lá está novamente o barulho da mente, com o observador a observá-lo, vendo-se limitado, impotente diante da descoberta de um estado de ser onde tédio e falta de sentido não sejam uma realidade perpetuante. Como o observador não se depara com algo prazeroso, que o faça "sentir" algo diferente da realidade desconexa que em si observa, a mente sugere por atividades externas que, segundo sua projeção, poderiam proporcionar ao observador, alguma fonte de prazer, mesmo que momentâneo. Com essas projeções, surgem também a ansiedade por conseguir tornar realidade a manifestação dessas projeções mentais, que sempre ocorrem na ponte do tempo psicológico, passado/futuro.

Deca: sim.

Out: No entanto, a consciência acusa ao observador a falência de se identificar com tais projeções, com tais idéias, as quais apontam para a busca do limitado prazer momentâneo; então, o observador se vê novamente diante do vazio.

Deca: Sim.

Out: E, assim, a mente reinicia seu ciclo com novas projeções...

Deca: Intermináveis projeções.

Out: ...Observador observando o vazio; mente sugerindo atividades que silenciem o vazio; consciência acusando a total falência da identificação com tais sugestões... Esse ciclo parece não ter fim... Diante disso, ocorre uma consciência ao observador, de sua total impotência no que diz respeito a descoberta de um modo de romper com esse ciclo vicioso.

Deca: Sim.

Out: E, mediante esse estado de consciência, novamente, diante do observador, o estado de vazio... Ficar com o vazio, além de ser profundamente doloroso, é apontado pela mente como sendo uma "perda de tempo" e, imediatamente, a mente vem com uma nova sugestão que possa dar fim ao sentimento doloroso de vazio... Mesmo que essa sugestão seja para a leitura de algo de “conteúdo superior”, digamos assim.

Deca: Sim.

Out: A mente sugere que, talvez, no livro tal, no áudio tal, no site tal, na fala de tal guru, o observador consiga encontrar a "resposta final" para seu constante estado de tédio, insatisfação, vazio e falta de sentido existencial. Se o observador se identifica com tal sugestão, ocorrem das duas uma: ou ele se depara com algo que amplia ainda mais a consciência de sua impotência para transcender a sua própria limitação, limitação essa que o mantem enclausurado nesse círculo vicioso, ou, ao se deparar com o conteúdo buscado, sente-se totalmente frustrado diante de tal conteúdo. Então, novamente no vazio, o observador se vê observando o vazio, os barulhos da mente, os barulhos do "silêncio externo", como o som da energia perpassando os aparelhos elétricos do recinto em que se encontra. Imediatamente, a mente, apoiando-se nas antigas falas de terceiros — falas estas armazenadas na memória —, insiste para que o observador "faça algo", para que se entregue a alguma atividade qualquer, a fim de, pelo menos, manter sua mente ocupada, distraída de si mesma. No entanto, para o observador, nenhuma dessas sugestões se mostram com sentido. Assim, o observador se vê novamente diante do vazio...

Deca: Sim.

Out: A mente insiste na sugestão de que, através de algum tipo de busca externa, tais sentimentos dolorosos podem ser momentaneamente eliminados. Mas, pela observação, pela escuta atenta, há também a consciência da total falência dessas sugestões. A mente sugere que o estado de bem-estar poderá ser encontrado em qualquer outro ponto que não seja o ponto onde, no agora, se encontra o observador.

Deca: Sim.

Out: Esse parece ser o seu constante jogo, no qual mantém o observador num estado de busca que, em última análise, faz parte de sua inconsciência, parte de sua ignorância, ignorância essa pela qual se mantém nesse ciclo vicioso.

Out: Diante disso, o que lhe vêm à mente? O que poderia acabar de vez com esse estado dual, observador e coisa observada?

Deca: Sim.

Out: Fiz-lhe uma pergunta.

Deca: Ah! Pensei que fosse do texto. O que sei não adianta, porque é do pensamento.

Out: Então, também ocorre em seu Ser, a percepção da necessidade de uma assim chamada "ocorrência" que não esteja nos limites do pensamento, nos limites do conhecido?

Deca: Claro! Algo que transcenda tudo isso que "eu sei" e que não é meu.

Out: Isso nos coloca novamente diante do vazio; nos lança novamente no terreno do primeiro passo, o passo da total impotência.

Deca: Exatamente!

Out: Então, talvez seja isso o que os Sábios de todos os tempos — os assim chamados "homens iluminados" — quiseram se referir de que "o primeiro passo é também o último passo".

Deca: É, quando estamos impotentes ficamos entregues, a mercê; talvez essa é a entrega dos anônimos.

Out: Entregar-se ao vazio?

Deca: Ou seja lá qual for o seu nome… Sabendo que através do pensamento, nada podemos fazer; somente algo superior mesmo a tudo isso.

Out: Não estaríamos assim, caindo no terreno da crença, da esperança? E essa crença e esperança, não podem ser mais uma das sugestões da mente para fugir da compreensão desse vazio? 

Deca: Não! Essa entrega é também não esperar por nada; é ficar no aberto…

Out: Ficar aberto ao que é sem aceitação dos conteúdos sugeridos pela mente...

Deca: Sim!

Out: Isso nos leva a sentir algo na dimensão do coração... a quentura.

Deca: Exato!

Out: Isso é o que sinto agora!… O vazio, os sons do silêncio ambiente, e a constatação de uma Presença na dimensão do coração. Não se trata de forma alguma de uma espécie de "escapismo místico.

Deca: Sim! É o que é! Nesse momento, sinto que todos somos um.

Out: Essa meditação parece fazer surgir uma “quentura” na região coronária, onde, através dela, um estado de bem-estar reconciliador, se apresenta.

Deca: O Ser é um só, habitando em todos, e nós somos esse ser… Dá pra sentir a conexão… E olha só o nome: natura UNA… CARACAS! Meu peito está pegando fogo.

Out: A entidade observadora, de fato, encontra-se condicionada aos pronomes possessivos... "meu peito"... Ocorre-me a pergunta: por que não nos mantemos nesse "estado abrasador" reconciliador? A resposta que vem: porque ainda somos facilmente "hipnotizados" pelas sugestões da mente. Ocorre-me que a manutenção desse estado de "estar consciente" da consciência que somos e  não mais se manter identificado como sendo esse estado tido por muitos como natural — de ser a mente, o corpo, as emoções e os sentimentos —, é algo parecido com o movimento de aprender a andar... Inicialmente é algo vascilante, temos que nos apoiar em algo para fazer frente ao medo e as dificuldades; facilmente caímos e com a queda, o choro. Depois que se aprende a andar, não há nenhuma presença de esforço para andar e não há mais como se esquecer, ou ter que pensar em “como” se faz andar… Parece que agora você se encontra muito ocupada. Nos falamos mais tarde. Um beijo em seu coração! Vou compartilhar esta conversa! Até mais tarde!

Deca: Não estou não!

Out: Ok! Quer continuar?

Deca: Sim!

Out: Enquanto você se mantinha em silêncio, dê uma olhada no que li...

“…Pergunta: Pode-se ter uma experiência temporária do Eu Real, a realidade subjacente, mas então ela desaparece. Você pode dar alguma orientação em como permanecer estável naquele estado?

Annamalai Swami: Uma lampião que está aceso pode apagar se o vento estiver forte. Se você quiser vê-lo novamente, você tem que reacendê-lo. Mas o Ser não é assim. Ele não é uma chama que pode ser apagada pela passagem dos ventos dos pensamentos e desejos. Ele é sempre luminoso, sempre brilhante, está sempre lá. Se você não está consciente dele, isso significa que você colocou uma cortina ou um véu na frente dele que bloqueia sua visão. O Ser não oculta a si mesmo atrás de uma cortina. É você que coloca a cortina lá ao acreditar em ideias que não são verdadeiras. Se a cortina se abre e então se fecha novamente, isso que dizer que você ainda está acreditando em ideias erradas. Se você erradicou-as completamente, elas não reaparecerão. Enquanto essas ideias estiverem cobrindo o Eu Real, você ainda precisa fazer constante sadhana.

Então, voltando à sua questão, o Eu Real não precisa estabilizar-se. Ele é pleno e completo em si mesmo. É a mente que pode ser estabilizada ou desestabilizada, não o Ser… Quando você medita ou faz sadhana, você está fluindo de volta para a fonte de onde você veio. Depois de ter alcançado essa fonte, você descobre que tudo o que existe – mundo, Guru, mente – é um. Diferenças e distinções não surgem lá.”

Deca: Sim! Aquilo que a gente vem falando, precisa tirar todo esse entulho para, quem sabe, o SER,  se manifeste.

Out: a prática da atenção plena ao que é!

Deca: Observação plena!… Um momento, por favor!…

Out: Ok! Enquanto isso, deixe terminar de postar o que li:

“…Não dualidade é jnana; dualidade é samsara. Se você puder abandonar a dualidade, só Brahman permanece, e você percebe que você mesmo é esse Brahman, mas para fazer essa descoberta a meditação contínua é necessária. Não reserve períodos de tempo para isso. Não considere isto como alguma coisa que você faz quando está sentado com os olhos fechados. Essa meditação tem que ser contínua. Pratique-a enquanto estiver comendo, caminhando, e mesmo conversando. Ela tem que acontecer o tempo todo.”

Deca: Atenção plena!… É meditação, é observação!

Out: Mas percebo que nos distraímos muito facilmente pelas sugestões de prazer ou pelas atividades do cotidiano.

Deca: Com certeza!

Out: Parece que só quando nos vemos imersos na dor é que nos tornamos mais propensos a dedicar atenção a esse movimento da meditação. Tipo aquela frase de Paulo de Tarso... “Quando estou fraco, estou forte; quando estou forte, estou fraco.”

Deca: É por aí!

Out: Quando o eu está fraco, a Consciência do que é, é mais forte; quando o eu está forte, a Consciência se perde na esfera dos desejos… Na esfera da masturbação mental.

Deca: Mas você acha que a Consciência se perde?

Out: Sempre a limitação das palavras… Não é que a Consciência se perca; apenas fica “velada” pela ação da identificação com as imposições do eu, do ego. Quando não há o espaço gerado pela observação, ocorre aquilo que tenho chamado de “estado de torpor hipnótico” que leva à atitudes inconscientes e inconsequentes. Durante todo o processo, a Consciência está ali, sinalizando, mas, a força do ego parece sobrepujá-la; não conseguimos deter a identificação... Sei que você sabe bem o que é isso.

Deca: e quando ele está forte é o grande perigo; e como! Mesmo que seja por pouquíssimo tempo, mas ainda há a identificação.

Out: É como naquele outro dizer de Paulo de Tarso… “Pois o que faço, não o entendo; porque o que quero, isso não pratico; mas o que aborreço, isso faço... Agora, porém, não sou mais eu que faço isto, mas o pecado que habita em mim... Com efeito o querer o bem está em mim, mas o efetuá-lo não está... Ora, se eu faço o que não quero, já o não faço eu, mas o pecado que habita em mim. Acho então esta lei em mim, que, mesmo querendo eu fazer o bem, o mal está comigo... Tenho prazer na lei de Deus; mas vejo nos meus membros outra lei guerreando contra a lei do meu entendimeno... Miserável homem que eu sou! quem me livrará do corpo desta morte?

Deca: Sim!

Out: Miserável homem que sou!... Está aí a identificação com o corpo, com a mente, as emoções, os desejos, os pensamentos... O pecado seria a identificação plena com as sugestões da mente.

Deca: Sim!

Out: O contato consciente com  Deus, proposto pelos grupos anônimos, seria aqui, a ação, pela meditação, da retomada da Consciência que somos.

Deca: A morte física acho que é uma das maiores distrações do pensamento.

Out: Você quer dizer "o medo da morte física?"

Deca: Sim!

Out: Sim! “Uma das”… Bem, preciso sair para comer algo! Nos falamos mais tarde! beijos!

Deca: Não sei se vou ter carona; te ligo a hora que chegar no Metro Conceição. Beijão!

V de Vingança - Dublado

Àudio: O conhecimento falso é o inimigo do despertar da Verdade

28 de novembro de 2012

Meditação é Alegria


Meditação não é algo da mente, é algo além da mente. E o primeiro passo é alegrar-se com ela. Se você  se alegrar com ela, a mente não poderá destruir a sua meditação. Caso contrário, ela se transformará em outra busca do ego; ela o tornará muito sério. Você começará a pensar: “Sou um grande meditador. Sou mais santo do que as outras pessoas. O mundo todo é apenas profano — sou religioso, sou virtuoso.” Isso é o que tem acontecido aos milhares dos assim chamados santos, moralistas, puritanos: eles estão simplesmente participando dos jogos do ego — jogos sutis.

Por esse motivo, quero cortar o mal pela raiz. Divirta-se com a meditação. Ela é uma canção a ser cantada, uma dança a ser dançada. Encare-a como uma diversão e você ficará surpreso: se puder se divertir com a meditação, ela se desenvolverá a passos largos.

Mas você não tem qualquer objetivo; está apenas sentindo prazer em ficar sentado em silêncio, apenas sentindo prazer no próprio ato de se sentar em silêncio. Não que você esteja ansiando por poderes de iogue, por sidis, ou por milagres. Tudo isso é tolice, a mesma velha tolice, o mesmo velho jogo, jogado com novas palavras, em um novo plano... A vida tem de ser encarada como uma brincadeira cósmica —  e então subitamente você relaxa porque não há nada com o que ficar tenso. E nesse próprio relaxamento algo começa a mudar em seu íntimo —  uma mudança radical, uma transformação — e as pequenas coisas da vida começam a adquirir um novo sentido, um novo significado. Então nada é pequeno, tudo começa a ter uma nova qualidade, uma nova aura; você começa a sentir uma espécie de divindade em toda parte. Não  se torna um cristão, um adepto do hinduísmo ou um muçulmano; torna-se simplesmente um amante da vida. Você aprende somente uma coisa: a regozijar-se com a vida.

E regozijar-se com a vida é o caminho para Deus. Faça da dança o seu caminho para Deus...faça do riso o seu caminho para Deus...faça do canto o seu caminho para Deus!...

Osho

Reflexões sobre um estado sobrenatural de ser


Parece-me um fato que, o homem não tem como se ver livre dos constantes ataques da ansiedade, do medo e dos desejos — ataques estes que dão margem a uma enorme quantidade de outros sentimentos torturantes, tais como o vazio, o tédio, a insatisfação e a falta de sentido — enquanto não tem um encontro consigo mesmo, um encontro com sua real natureza, natureza essa que nada tem em comum com essa imagem criada, idealizada e sustentada por décadas através da constante prática forçada da imitação e do ajustamento limitante. Parece-me que, sem a ocorrência de algo “sobrenatural”, ou seja, algo que transcenda os limites dessa natureza que o faz se identificar e dar vazão a uma enorme gama de atitudes anti-naturais — e que por muitos são tidas por normais —, não há como o homem se ver livre desse constante estado de ansiedade que o aprisiona num modo de existência sem vida, forçando-o à uma constante e compulsiva busca por plenitude de vida, sempre na esfera das coisas mortas, como por exemplo, a palavra, o livro e o mundo das imagens. Sem esse “toque sobrenatural”, vê-se o homem numa dolorosa rotina sem sentido, rotina essa da qual não pode abrir mão, devido os forçados compromissos referentes ao seu custo de vida — ainda que este seja bem limitado por meio de um modo de vida pautado na simplicidade voluntária (refiro-me aqui ao limitado número de homens semi-conscientes, uma vez que, a maioria por estar dormindo, por estar num estado de sonambulismo crônico, nem se apercebe de sua triste situação de servidão escravagista). Assim, em nome de atender as exigências dos compromissos referentes ao forçado custo de vida, paga o homem com alto custo: o custo da possibilidade de saber por experiência direta, o que vem a ser a realidade do que é Vida. Parece-me que, sem esse “toque sobrenatural”, toque esse que transpassa a natureza de todos os esforços humanos, seja por meio da lógica, da razão ou de seu limitado acúmulo de conhecimento, no que diz respeito a manifestação da vivência de um estado de ser que é pura liberdade e felicidade, esse estado de ser fica apenas nos limites da idéia, nos limites da mente, nos limites do pensamento, nos limites da imaginação. Para o homem plenamente identificado com a mente, identificado com o endeusamento do intelecto, tal estado de ser é visto como algo utópico, algo fora da realidade e, segundo sua visão, todo aquele que coloca seus esforços no sentido de saber se há ou não essa realidade, sofre de algum tipo de insanidade mental, insanidade essa que deve ser nomeada, classificada, rotulada e devidamente tradada com os últimos experimentos resultantes das pesquisas dos laboratórios da indústria dos rentáveis psicotrópicos. Por lhe faltar esse estado de ser “sobrenatural”, a genuína, a verdadeira capacidade criativa, o frescor da novidade, que é o agora, o eterno, escapam-lhe das mãos, fazendo com que sua existência fique sempre nos limites da imitação, do plágio. Pergunto-me: sem a manifestação desse estado criativo de ser, como pode o homem, ver-se livre dos constantes ataques dos sentimentos de rotina, de tédio, insatisfação e falta de sentido? Deixo ao confrade, o espaço para reflexão. 

Out

Constatações sobre a consumose


Está todo mundo
se consumindo
para consumir
o que logo
vai sumir...

NJRO

Ecce Homo - Sobre o Trabalho

‎"No mundo inteiro há muita gente exigindo emprego; são muitas mãos estendidas numa época em que o número de cargos disponíveis tende a diminuir. A era pós-industrial apresenta novos desafios para a sociedade. Como poderemos integrar tantos trabalhadores em uma economia que não está gerando empregos? As mudanças no mercado de trabalho acontecem tão rapidamente que a sociedade tem dificuldade em absorvê-las. As pessoas se dividem entre as que trabalham demais e as que não tem emprego. As condições de trabalho estão se deteriorando e há cada vez mais gente insatisfeita com os seus empregos. Pressionadas até o limite essas pessoas sofrem de doenças causadas pelo excesso de estresse."

Observando os enredos da mente

16 de novembro de 2012

Sensibilidade


Era um lindo jardim, com gramados em vários níveis e velhas arvores frondosas. A casa era grande, com cômodos espaçosos, arejada e bem dividida. As arvores abrigavam muitos passarinhos e esquilos, e vinham pássaros de todos os tamanhos à fonte, às vezes águias, mas principalmente corvos, pardais e barulhentos papagaios. A casa e o jardim eram isolados, ainda mais que estavam cercados por altos muros brancos. Era agradável do lado de dentro desses muros, e do outro lado havia o barulho da estrada da aldeia. A estrada passava pelos portões e a alguns metros dela situava-se a aldeia, nos arredores de uma grande cidade. A aldeia era suja, com valões abertos ao longo da estreita rua principal. As casas tinham teto de sapê, os degraus da entrada estavam enfeitados e crianças brincavam na rua. Alguns tecelões esticaram longos cordões de fios de cores alegres para fazer tecidos, e um grupo de crianças os observava trabalhar. Era uma cena alegre, animada, barulhenta e repleta de odores. Os aldeões tinham acabado de se lavar e usavam pouca roupa, pois o clima era quente. Ao cair da noite alguns deles ficaram bêbados e tornaram-se vulgares e grosseiros.

Era apenas um muro estreito que separava o lindo jardim da agitada aldeia. Rejeitar a feiúra e agarrar-se à beleza é ser insensível. Cultivar o oposto sempre estreita a mente e tolhe o coração. A virtude não é um oposto; e se tiver um oposto, deixa de ser virtude. Perceber a beleza daquela aldeia é ser sensível ao jardim verde e florido. Queremos estar atento somente à beleza e nos desligamos daquilo que não é belo. Essa repressão simplesmente dá origem à insensibilidade, pois ela não realiza a apreciação da beleza. O bom não está no jardim, longe da aldeia, mas na sensibilidade que se encontra além de ambos. Rejeitar ou se identificar leva à imitação, que é ser insensível. A sensibilidade não é uma coisa para ser cuidadosamente nutrida pela mente, que só consegue dividir e dominar. Existe o bem e o mal; mas buscar um e evitar o outro não levar aquela sensibilidade que é essencial para a existência da realidade.

A realidade não é o oposto da ilusão, do falso, e se você tentar abordá-la como um oposto, ela jamais tomará forma.  A realidade só pode ser quando os opostos cessam. Condenar ou se identificar gera o conflito dos opostos, e conflito só produz mais conflito. Um fato abordado não-emocionalmente, sem rejeição ou justificação, não causa conflito. O fato em si mesmo não tem oposto; ele só tem um oposto quando existe uma atitude prazerosa ou defensiva. É essa atitude que constrói os muros da insensibilidade e destrói a ação. Se preferirmos permanecer no jardim, existirá uma resistência à aldeia; e onde há resistência  não pode haver ação, tanto no jardim quanto em relação à aldeia. Pode haver atividade, mas não ação. A atividade é baseada em uma idéia e a ação não o é. As idéias têm opostos e a movimentação entre os opostos é simples atividade, por mais prolongada ou modificada que seja. A atividade jamais pode ser libertadora. 

A atividade tem um passado e um futuro, mas a ação não tem. A ação está sempre no presente, e é portanto imediata. A reforma é atividade, não ação, e o que é reformado precisa de mais reforma. A reforma é inação, uma atividade nascida como um oposto. A ação é de momento para momento e, por estranho que pareça, ela não tem contradição inerente; mas a atividade, embora possa dar impressão de não ter intervalos, está cheia de contradições. A atividade da revolução é decifrada com contradições e, portanto, jamais pode libertar. Conflitos e escolhas jamais podem ser um fator libertador. Se há escolha, existe atividade e não ação; pois a escolha está baseada na idéia. A mente pode entregar-se a atividades, mas ela não pode agir. A ação surge de uma fonte bastante diferente.

A lua surgiu sobre a aldeia, criando sombras no jardim.


Krishnamurti – Comentários sobre o viver


12 de novembro de 2012

O amor é uma flor rara

O amor é uma flor rara. Ele só acontece às vezes. Milhões e milhões de pessoas vivem na falsa atitude de que amam. Elas acreditam que amam, mas isso é só uma crença.

O amor é uma flor rara. Às vezes ele acontece. É raro porque só pode acontecer quando não existe medo, nunca antes disso.

Isso significa que o amor só pode acontecer a uma pessoa profundamente espiritualizada, religiosa.

O sexo é possível para todos. A familiaridade é possível para todos. Não o amor.

Quando você não tem medo, não há o que esconder; então você pode se abrir, pode pôr abaixo todas as fronteiras. E então pode convidar o outro a tocar a sua essência.

E, lembre-se, se você deixa que alguém o toque profundamente, o outro também deixará que você o toque, pois, quando deixa que alguém o toque, você inspira confiança.

Quando você não tem medo, o medo da outra pessoa também desaparece.

No amor de vocês, o medo está sempre presente. O marido teme a mulher, a mulher teme o marido. As pessoas que se amam sempre têm modo uma da outra. Então não é amor. É só um arranjo entre duas pessoas medrosas, que dependem uma da outra, brigam, exploram-se, manipulam, controlam, dominam, possuem uma a outra — mas não é amor.

Se você conseguir deixar que o amor aconteça, não precisará de prece, não precisará de meditação, não precisará de igreja nenhuma, de templo nenhum.

Se amar, você pode se esquecer completamente de Deus — porque, por meio do amor, tudo terá acontecido a você: meditação, prece, Deus, tudo terá acontecido a você.

É isso que Jesus quis dizer quando falou que Deus é amor.

Mas o amor é difícil. O medo tem que ser superado. E é isto que é estranho, vocês têm tanto medo e, ao mesmo tempo, não têm nada a perder.

Osho, em "Coragem: O Prazer de Viver Perigosamente"

7 de novembro de 2012

Por quê, praticamente todo mundo fala da vida dos outros?

Pergunta: A bisbilhotice tem valor na autorrevelação, principalmente porque revela como são os outros. Por que não usar a bisbilhotice como um meio de descobrir o que é? Não estremeço ao escutar a palavra “bisbilhotice” só porque ela tem sido condenada por muitas gerações.

Krishnamurti: Pergunto-me por que fazemos mexericos. Não é porque eles nos revelam como os outros são. E por que haveríamos de querer conhecer os outros? Por que esse tremendo interesse na vida de outras pessoas? Por que bisbilhotamos? É uma forma de inquietação, não é? Como a preocupação, isso também é indicação de uma mente inquieta. Por que temos esse desejo de interferir na vida dos outros, de saber o que eles estão fazendo, falando? A mente que se entrega a bisbilhotices é bem superficial, não é? Pode ser uma mente investigadora que tomou um rumo errado. A pessoa que me fez a pergunta parece pensar que, por causa de seu interesse pelos outros, eles se revelarão com seus pensamentos, ações e opiniões. Mas podemos conhecer os outros, se não conhecemos a nós mesmos? Podemos julgá-los, se nem sabemos por que razão pensamos, agimos e nos comportamos de um determinado jeito? Por que nos preocupamos tanto como os outros? Não será uma forma de fuga, esse desejo de saber o que os outros estão pensando, sentindo, sobre o que estão falando? Isso não será um meio de escapar de nós mesmos? Nesse hábito, não haverá também o desejo, puro e simples, de nos intrometermos na vida dos outros? Penso que a nossa vida já é bastante difícil, bastante dolorosa, sem que lidemos com a vida de outras pessoas. Como achamos tempo para pensar nos outros de modo tão bisbilhoteiro e cruel? Por que agimos assim? Todo mundo faz isso. Todo mundo, praticamente, fala da vida dos outros. Por quê?

Acho que nos entregamos a mexericos porque não estamos suficientemente interessados no processo do nosso próprio pensamento e de nossas ações. Queremos ver o que os outros estão fazendo e, para falar com delicadeza, queremos imitá-las. E por que queremos isso? tal desejo não indica superficialidade de nossa parte? É uma mente estúpida, essa, que sai de si mesma para ir em busca de excitação. Em outras palavras, bisbilhotice é uma forma de sensação à qual nos entregamos. Pode ser um tipo diferente de sensação, mas há sempre o desejo de excitação, de distração. É, de fato, uma pessoa bastante superficial, essa que busca excitação externa, falando dos outros. Preste atenção quando estiver bisbilhotando a respeito de alguém, porque isso lhe mostrará muita coisa sobre si mesmo. Não tente disfarçar, dizendo que só está curioso a respeito de outras pessoas. A verdade é que isso indica inquietação, desejo de excitação, superficialidade e falta de um verdadeiro e profundo interesse nas pessoas, que nada tem a ver com bisbilhotice.

Outro problema é como parar com os mexericos. Quando percebemos que estamos falando de alguém, como paramos? Se isso se tornou um hábito, uma coisa feia que se repete dia após dia, o que fazer para acabar com esse comportamento? Quando você se pega bisbilhotando e está cônscio de todas as implicações dessa ação, não diz a si mesmo para parar? E não pára, no mesmo instante em que percebe que está sendo bisbilhoteiro? Experimente isso na próxima vez em que estiver falando de alguém, e verá como pára de bisbilhotar, quando percebe o que está fazendo, quando se conscientiza de que sua língua o domina. Não é preciso ter força de vontade para isso, basta que você esteja cônscio do que está falando e veja as implicações. Não é preciso condenar ou justificar a bisbilhotice. Esteja alerta, perceba o que está dizendo, e verá como pára rapidamente de falar, porque o que você fala lhe revela como age, como se comporta e qual é o seu padrão de pensamento. Nessa revelação, descobrirá a si mesmo, o que é muito mais importante do que falar dos outros, fazer comentários sobre o que eles fazem, o que pensam e como se comportam.

Muitos de nós lemos jornais que estão cheios de mexericos, numa bisbilhotice global. É um modo de fugirmos de nós mesmos, de nossa mesquinharia, do que há de feio em nossa vida. Pensamos que, por meio de um interesse superficial nos acontecimentos do mundo, tornamo-nos mais sábios, mais capazes de lidar com nossos próprios problemas. E isso não é um meio de fuga? Somos tão vazios, tão pouco profundos, temos tanto medo de nós mesmos! Somos tão pobres que a bisbilhotice torna-se uma forma de rico entretenimento, uma fuga de nós mesmos. Tentamos preencher nosso vazio interior com conhecimento, rituais, intrigas, com uma infinidade de meios de fuga que se tornam de vital importância, quando o mais importante deveria ser a compreensão do que é. Essa compreensão exige atenção. Saber que somos vazios, que estamos sofrendo, pede total atenção, não meios de fuga, mas são muitos os que gostam desses meios porque eles são muito mais prazerosos. Quando me vejo como realmente sou, acho muito difícil lidar comigo mesmo, e esse é um problema com os quais todos nós nos confrontamos. Sabemos que somos vazios, que estamos sofrendo, mas não sabemos o que fazer, não sabemos como lidar com isso. Então, recorremos a todos os tipos de fuga.

Assim, a pergunta é: o que fazer? É óbvio que não podemos escapar, pois seria um absurdo, uma infantilidade. Mas, quando você vê diante de si mesmo, quando se vê como é, o que deve fazer? Primeiro, é possível você não negar ou justificar o que vê, mas conservar-se como é? Isso é extremamente difícil, porque a mente busca explicação, condenação, identificação. Se ela não faz nada disso, é possível aceitar alguma coisa. Se aceito que sou escuro, está acabado, mas se lamento não ter a pele mais clara, isso é um problema. É muito difícil aceitar o que é, só conseguimos isso quando não há fuga, e condenação ou justificação são formas de fuga. Assim, quando entendemos por que falamos tanto dos outros, e como esse comportamento é absurdo, cruel e tudo o mais o que ele envolve, ficamos frente a frente com o que somos e, ou tentamos destruir o que vemos, ou tentamos transformá-lo em algo diferente. Se não fizermos nenhuma dessas coisas, mas decidirmos compreender e aceitar completamente o que vemos, descobriremos que não é mais aquilo que temíamos. Então, existe a possibilidade de transformamos aquilo que é.

Krishnamurti - A primeira e última liberdade

6 de novembro de 2012

Áudio: A busca do homem

Reunião pelo Paltalk em 05/11/2012

O que acontece quando não fazemos esforço para fugir?


Para a maioria de nós a vida se baseia no esforço, em algum tipo de vontade. Não é possível imaginar uma ação sem vontade, sem esforço. A vida social, a econômica e a que chamam espiritual são uma série de esforços que sempre produzem um certo resultado. E, assim, pensamos que o esforço é necessário, imprescindível.

Por que fazemos esforço? Falando simplesmente, não é porque queremos alcançar algum resultado, uma meta, nos tornarmos alguma coisa? Se não fazemos esforço, achamos que estamos estagnados. Formamos uma ideia a respeito do objetivo pelo qual estamos constantemente lutando, e essa luta torna-se parte de nossa vida. Se queremos nos modificar, efetuar uma mudança radical em nós mesmos, fazemos um tremendo esforço para eliminar antigos hábitos, para resistir às habituais influências do meio, e assim por diante. Então, estamos acostumados a essa série de esforços para encontrarmos ou realizarmos alguma coisa, enfim, para viver.

Todo esse esforço não é atividade do eu? Não é uma atividade egocêntrica? Se fizermos um esforço a partir do eu, isso inevitavelmente produzirá mais conflito, mais confusão, mais infortúnio. No entanto, continuamos a fazer esforço após esforço. Poucos de nós compreendem que a atividade egocêntrica do esforço não soluciona nenhum dos nossos problemas. Ao contrário, ela aumenta a nossa confusão e infelicidade. Sabemos disso, mas continuamos a achar que podemos progredir por meio dessa atividade egocêntrica do eu, dessa ação da vontade.

Penso que entenderemos o significado da vida se compreendermos o que significa fazer esforço. A felicidade vem por meio do esforço? Você já tentou ser feliz esforçando-se? Isso é impossível, não é? Você luta para ser feliz, e a felicidade não vem. A alegria não vem por meio da opressão, do controle, nem da complacência. Você pode ser complacente, mas o que encontra no fim é amargura. Pode oprimir ou controlar, mas nisso também há sempre conflito. Assim, a felicidade não vem pelo esforço, nem a alegria por meio da opressão e controle, mas, apesar disso, nossa vida é uma sequencia de atos repressores, controladores e de lamentável complacência. Há também um constante processo de superação, de luta contra as nossas paixões, contra a nossa ganância e estupidez. Não lutamos, então, não nos esforçamos, na esperança de encontrar a felicidade, de encontrar alguma coisa que nos dê um senso de paz e de amor?  Mas amor e compreensão vem pela luta? Penso que é muito importante esclarecermos o que entendemos por luta ou esforço.

Esforço não significa uma luta para transformar o que é no que não é, ou no que deveria ser? Estamos constantemente lutando para não encarar o que é, ou tentando fugir dele ou modifica-lo. Um homem que se sente verdadeiramente contente é aquele que compreende o que é e lhe dá o significado correto. O verdadeiro contentamento é esse, é não estar preocupado por ter poucas ou muitas posses, é compreender o total significado do que é. E isso só pode acontecer quando reconhecemos o que é, quando o percebemos, não quando estamos tentando modifica-lo.

Assim, vemos que o esforço é uma tentativa, uma luta, para transformar aquilo que é em algo que desejamos que seja. Estou falando apenas de luta psicológica, não da luta com uma situação física, como na engenharia, numa descoberta ou numa transformação, pois isso é puramente técnico. Só estou falando da luta psicológica, que sempre supera a da técnica. Pode-se construir uma sociedade maravilhosa usando o infinito conhecimento que a ciência nos dá. Mas enquanto o esforço e a luta psicológicos não forem compreendidos, as nuances e as tendências psicológicas não forem superadas, a estrutura da sociedade, apesar de maravilhosamente construída, correrá o risco de ruir, o que tem acontecido repetidas vezes.

O esforço desvia a nossa atenção do que é. No momento em que aceitamos o que é, a luta termina. Qualquer forma de luta ou conflito indica desvio, e esse desvio, que é esforço, obrigatoriamente existe quando nós, psicologicamente, desejamos transformar o que é em algo que não é.

Primeiro, precisamos ser livres para ver que a alegria e a felicidade não vêm por meio do esforço. A criação se dá por meio do esforço, ou apenas quando ele cessa? Quando é que criamos? Sem dúvida, quando não há esforço, quando estamos completamente abertos, quando, em todos os níveis, estamos completamente integrados. Então há alegria, e começamos a cantar, ou escrever uma poesia, ou pintar, ou criar alguma coisa. O momento da criação não nasce da luta.

Talvez, se compreendermos a questão da criatividade, possamos compreender o que queremos dizer com “esforço”. A criatividade resulta do esforço? Estamos cônscios de nós mesmos quando estamos sendo criativos?

Ou a criatividade é um senso total de esquecimento de nós mesmos, um estado que não há tumulto algum, em que estamos inteiramente inconscientes do movimento do pensamento e há apenas um rico senso de plenitude do ser? Esse estado é fruto de trabalho árduo, de luta, de conflito, de esforço? Não sei se você alguma vez notou que, quando faz algo com facilidade, rapidamente, não há esforço; ao contrário, há uma completa ausência de luta. Mas como a nossa vida é quase sempre uma série de batalhas, conflitos e esforços, não conseguimos nos imaginar vivendo um estado de ser em que toda luta cessou completamente.
Para que se entenda esse estado de ser sem luta, esse estado de existência criativa, é preciso analisar o problema do esforço. Por “esforço” queremos dizer a luta pela realização pessoal, pela satisfação do desejo de ser alguém, não é? Eu sou isto, quero ser aquilo. Não sou aquilo e quero ser. Querer ser “aquilo” gera luta, conflitos, batalhas. Nessa luta, invariavelmente nos preocupamos com nossa realização relativa a alcançar um certo fim. Buscamos realização pessoal em um objeto, uma pessoa, uma ideia, e isso exige batalha constante, exige que nos esforcemos para nos tornarmos alguma coisa, para nos sentirmos realizados. Então, consideramos esse esforço inevitável, e eu me pergunto se essa luta para nos tornarmos alguma coisa é inevitável. Qual o motivo dessa luta? Onde há o desejo de realização, em qualquer grau, a luta. Realização é o motivo, o impulso por trás do esforço e, seja um grande executivo, uma dona de casa, ou um homem pobre, todos estão batalhando para para ser alguma coisa, para se sentirem realizados.

Bem, por que existe esse desejo de autorrealização? É um desejo, obviamente, que surge quando a pessoa acha que não é nada. Como eu não sou nada, como sou insuficiente, vazio, pobre internamente, luto para me tornar alguma coisa, por dentro e por fora, luto para me realizar por intermédio de uma pessoa, uma coisa, ou uma ideia. Preencher esse vazio é todo o processo de nossa existência. Ao percebermos que estamos vazios, pobres por dentro, lutamos para conquistar coisas exteriores, ou cultivarmos a riqueza interior. Existe esforço apenas quando há uma fuga desse vazio interior, por meio de contemplação, aquisição, realização, poder, e por aí adiante. Essa é a nossa existência diária. Estou cônscio de minha insuficiência, dessa minha pobreza interior, e luto para fugir disso, preencher esse vazio. Essa fuga, ou essa tentativa de preencher o vazio, causa luta, conflito, esforço.

O que acontece quando não fazemos esforço para fugir? Vivemos com essa solidão, com esse vazio, e, ao aceitarmos isso, vemos surgir um estado criativo, que não tem nada a ver com luta, com esforço. Existe esforço apenas enquanto tentamos evitar a solidão interior, mas quando a examinamos, quando aceitamos o que é, sem tentar evita-lo, alcançamos um estado de ser em que toda luta cessou. Esse estado de ser é criatividade, e não resulta de esforço.

Quando compreendemos o que éou seja, o vazio, a insuficiência interior, e vivemos com essa insuficiência e a compreendemos completamente, encontramos a realidade criativa — a inteligência criativa —, que, por si só, traz felicidade.

Assim, a ação, como a conhecemos na verdade é reação, uma transformação incessante, e isso é negação do que é. Mas quando há uma conscientização do vazio, sem condenação ou justificativa, com compreensão do que é, então, sim, a ação é criatividade. Você compreenderá isso se estiver cônscio de si mesmo, quando em ação. Observe-se quando estiver agindo, veja a si mesmo não apenas externamente, mas procure perceber também o movimento de seus pensamentos e sentimentos. Quando perceber esse movimento, verá que o processo do pensamento, que também é de sentimento e ação, baseia-se em uma ideia de transformação. Essa ideia surge apenas quando há um senso de insegurança, e esse senso vem quando se está cônscio do vazio interior. Se você estiver cônscio desse processo de pensamento e sentimento, verá que há uma batalha em constante andamento, um esforço para mudar, alterar o que é. Esse é o esforço de transformação, e transformar é evitar diretamente o que é. Por meio do autoconhecimento, da constante conscientização de si mesmo, você descobrirá que a luta pela transformação leva à dor, ao sofrimento e à ignorância. Só quando estiver cônscio de sua insuficiência interior e viver com ela, sem tentar fugir, aceitando-a integralmente, é que você descobrirá uma maravilhosa tranquilidade, uma tranquilidade que não é fabricada, não é construída, mas que vem com a compreensão do que é. E é só nesse estado de tranquilidade que pode haver existência criativa.

Krishnamurti

26 de outubro de 2012

A compreensão de nós mesmos é o despertar e o fim do medo



Existe o medo. O medo nunca é uma realidade: ele vem sempre antes ou depois do presente ativo. Quando há medo no presente ativo, será isso medo? Ele está ali e não há como fugir dele, não há como escapar. Ali, no momento presente, há atenção total ao momento de perigo, físico ou psicológico. Quando existe uma atenção total não existe medo. Mas o próprio fato da desatenção gera o medo; o medo surge quando existe a evitação do fato, uma fuga; então, a fuga é, ela própria, o medo.

O medo em suas diversas formas — culpa, ansiedade, esperança, desespero — está presente em cada movimento do relacionamento; ele está presente em cada busca de segurança; ele está presente na ambição e no sucesso; está presente na vida e na morte; está presente nas coisas físicas e nos fatores psicológicos. Existe o medo em muitas formas diferentes e em todos os níveis da nossa consciência. A defesa, a resistência e a negação nascem do medo. Medo do escuro e medo da luz; medo de ir e medo de vir. O medo começa e termina com o desejo de segurança, de ter segurança interior e exterior, com o desejo de ter certeza, de ter permanência. A continuidade da permanência é procurada em todas as direções, na virtude, no relacionamento, na ação, na experiência, no conhecimento, nas coisas exteriores e nas interiores. Encontrar a segurança e tornar-se seguro é a última palavra. É essa demanda insistente que produz o medo.

Mas existe permanência, exterior ou interior? Talvez, em certa medida, existe a permanência exterior, mas mesmo essa é precária: há guerras, revoluções, progresso, acidentes e terremotos. É preciso que haja alimentos, roupas e abrigos; isso é essencial e necessário para todos. Embora sempre procurada, tanto às cegas como através da razão, será que existe a certeza interior, a continuidade interior, a permanência? Não existe. A fuga dessa realidade é medo. A incapacidade de enfrentar essa realidade produz todo tipo de esperança e desespero.

O próprio pensamento é a fonte do medo. Pensamento é tempo; o pensamento no amanhã é prazer ou dor; se for algo prazeroso, o pensamento irá persegui-lo, temendo que acabe; se for doloroso, a própria tentativa de evita-lo já é medo.  Tanto o prazer quanto a dor provocam medo. Tempo como pensamento e tempo como sentimento provocam medo. O único meio de acabar com o medo é a compreensão do pensamento, do mecanismo da memória e da experiência. O pensamento é todo o processo da consciência, tanto o visível como o oculto; o pensamento não é apenas a coisa em que se pensa, mas também a origem de si mesmo. O pensamento não é, meramente, crença, dogma, ideia e razão, mas o núcleo do qual isso tudo brota. Esse núcleo é a origem de todo o medo. Mas é da experiência do medo ou da percepção da causa do medo que o pensamento tenta escapar? A autoproteção física é algo útil, normal e saudável; mas qualquer outra forma de autoproteção interior é resistência e sempre reúne forças, se robustece, e isso é medo. Mas esse medo interior faz com que a segurança exterior se torne um problema de classe, de prestígio, de poder e o resultado disso é uma competição implacável.

Quando se enxerga todo o processo de pensamento, tempo e medo — e não como uma ideia, uma fórmula intelectual — há o fim definitivo e total do medo, consciente ou oculto. A compreensão de nós mesmos é o despertar e o fim do medo.  

E quando o medo cessa, o poder de criar ilusão, mitos e visões, com sua esperança e desespero, também cessa, e só então tem início um movimento de ir além da consciência, a qual é pensamento e sentimento. É o esvaziar de nossos recessos mais profundos e das vontades e desejos mais ocultos. Então, quando se atingiu o vazio total, quando não há absoluta e literalmente nada, nenhuma influência, palavra, valor ou fronteira, então, nesse silêncio total do espaço-tempo, existe o que é indizível.

Krishnamurti – Diário de Krishnamurti – Paris, 14 de setembro de 1961

Preste atenção na raiva e veja um milagre


O único problema com a tristeza, com o desespero, com a raiva, com a falta de esperança, com a ansiedade, com a angústia, com a infelicidade, é que você quer se livrar dessas emoções. Essa é a única barreira.

Você terá de conviver com elas. Não pode fugir, simplesmente. 

Elas são situações nas quais sua vida tem de se integrar e crescer. São desafios da vida. Aceite-as. Elas são bênçãos disfarçadas. Se você fugir delas, se quiser se livrar delas de algum jeito, você criará problema – pois, quando quer fugir delas, você não olha para elas diretamente.

Uma estrela da Broadway estava visitando alguns amigos quando, como de costume, a conversa começou a girar em torno da psiquiatria. "Devo dizer", disse a anfitriã, "que o meu analista é o melhor que existe! Você não pode imaginar o que ele fez por mim. Você tem de conhecê-lo".

"Mas eu não preciso de analista", disse a estrela. "Eu não poderia ser mais normal – não há nada de errado comigo". "Mas é simplesmente fabuloso", insistiu a amiga, "ele encontrará alguma coisa errada em você".

Existem pessoas que sempre encontrarão alguma coisa errada em você. O segredo da profissão delas é descobrir o que há de errado em você. Elas não podem aceitá-lo como você é; elas dão a você ideais, ideias, ideologias, e farão com que se sinta culpado, uma pessoa imprestável, sórdida. 

Elas farão com que você se sinta tão condenável, aos seus próprios olhos, que você esquecerá tudo sobre liberdade.

Na verdade, você passará a ter medo da liberdade, pois verá o quanto você era ruim, o quanto estava errado – e, se for livre, você acabará fazendo alguma coisa errada, então é melhor seguir alguém. O padre depende disso, o político também. Eles mostram a você o certo e o errado, ideias fixas, e então você passa a viver com culpa para sempre. 

Eu digo a você: não existe nada que seja certo e nada que seja errado. 

Se você está com raiva, o padre lhe dirá que isso não está certo, você não pode ficar com raiva. O que você faz, então? Você pode reprimir a raiva, sentar-se sobre ela, engoli-la, literalmente, mas ela continuará em você, no seu organismo. 

Engula a raiva e você terá úlceras no estômago; engula a raiva e, mais cedo ou mais tarde, você terá câncer. Engula a raiva e você criará um milhão de problemas, porque a raiva é venenosa. Mas o que você faz? Se está errado, você engole. 

Eu não digo que a raiva seja errada, eu digo que a raiva é energia – energia pura, uma bela energia. Quando ela irromper, preste atenção e veja um milagre acontecendo. Quando ela irromper, preste atenção e, se fizer isso, ficará surpreso; você terá uma surpresa – a maior da sua vida: descobrirá que, se prestar atenção nela, ela desaparece. 

A raiva é transformada. Ela vira energia pura; vira compaixão, vira perdão, vira amor. E você não precisa reprimi-la, por isso não terá de levar consigo esse veneno. E você não ficará com raiva, por isso não ofenderá ninguém.

Ambos são salvos: o outro, o objeto da sua raiva, e você mesmo. No passado, ou o objeto da raiva estaria sofrendo ou então você. 

O que eu estou dizendo é que não é preciso que ninguém sofra. Basta que você preste atenção, fique consciente. A raiva surgirá e será consumida pela consciência. A pessoa não pode ter raiva se está consciente, não pode ter ganância se está consciente e não pode ter inveja se está consciente. 

A consciência é a chave de ouro.

Osho

24 de outubro de 2012

A desumanidade do homem


Perguntaram a Osho:

Por que as pessoas tratam uns aos outros como o fazem? Tudo isso é condicionamento, ou há algo no homem que o torna disposto a se desviar? 

São ambas as coisas.

Primeiro, há alguma coisa no homem que o desencaminha. E segundo, existem pessoas cujos interesses é desencaminhar os seres humanos. Ambos juntos criam um ser humano falso, um impostor. Seu coração anseia por amor, mas sua mente condicionada o impede de amar.

 Esse é o problema. A criança nasce com um coração que anseia por amor, mas ela também nasce com um cérebro que pode ser condicionado.

A sociedade tem que condicioná-lo contra o coração, porque o coração será sempre rebelde contra a sociedade, ele irá sempre seguir seu próprio caminho. O coração não pode ser tido como um soldado. Ele pode se tornar um poeta, ele pode se tornar um cantor, pode se tornar um dançarino, mas não pode se tornar um soldado.

Ele pode sofrer pela sua individualidade, ele pode morrer pela sua individualidade e liberdade, mas ele não pode ser escravizado. Esse é o estado do coração. Mas a mente...

A criança vem com um cérebro vazio, apenas um mecanismo, o qual você pode arrumar da maneira que você quiser. Ele irá aprender a língua que você ensinar, ele aprenderá a religião que você ensinar, ele aprenderá a moralidade que você ensinar.

Ele é simplesmente um computador, você apenas o alimenta com informações. E toda sociedade cuida de tornar a mente cada vez mais forte para que se houver algum conflito entre a mente e o coração, a mente irá vencer. Mas cada vitória da mente sobre o coração é uma miséria. É uma vitória sobre sua natureza, sobre seu ser — sobre você — pelos outros. E eles cultivaram sua mente para servir ao propósito deles.

Portanto, a mente é vazia, seu cérebro; você pode colocar qualquer coisa nela. E com vinte e cinco anos de educação você pode torná-la tão forte que você pode esquecer seu coração; você irá permanecer sempre miserável.

A miséria é que seu coração só pode lhe dar alegria, só pode lhe dar felicidade, só pode lhe fazer dançar. A mente pode fazer aritmética, mas ela não pode cantar uma canção. Essas não são as habilidades da mente. Assim você está dividido entre sua natureza, que é seu coração, e a sociedade, que é sua cabeça. E certamente você nasce — todos nascem — com esses dois centros. Essa é a dificuldade.

E um centro está vazio. Numa sociedade melhor ele será utilizado de acordo com o coração, para servir ao coração. Então será uma grande vida, cheia de regozijos. Mas até agora temos vivido numa sociedade feia, com idéias podres. Eles usaram a mente. E essa vulnerabilidade existe — a mente pode ser usada. 

Agora os comunistas a estão usando de uma maneira; os fascistas a usaram na Alemanha de outra maneira; todas as outras religiões a estão usando de diferentes maneiras. Mas essa vulnerabilidade está em todos os indivíduos: que você tem uma mente que você trouxe vazia. De fato, isso é uma bênção da existência – mas, mal utilizada, explorada.

Ela lhe é dada vazia para que você possa fazê-la perfeitamente subserviente ao seu coração, aos seus anseios, ao seu potencial. Não há nada de errado nisso. Mas os interesses investidos por todo o mundo encontraram nisso uma bela oportunidade para eles — para usar a mente contra o coração. Assim você permanece miserável e eles podem lhe explorar por todos os meios que quiserem. 

Eis porque todo o mundo é miserável. 

Todo mundo quer ser amado, todos querem amar; mas a mente é uma barreira tal que nem lhe permite amar, nem lhe permite ser amado. Em ambos os casos a mente fica no caminho e começa a distorcer tudo. E mesmo se por acaso você encontrar uma pessoa que você sinta amor por ela e a pessoa sinta amor por você, suas mentes não irão concordar. Elas foram treinadas por sistemas diferentes, religiões diferentes, sociedades diferentes.

Ser feliz é um direito inato de todos, mas infelizmente a sociedade, as pessoas com as quais estamos vivendo, que nos trouxeram para este mundo, não pensaram nada a respeito disso. Elas estão somente reproduzindo seres humanos como animais — até mesmo pior que isso porque pelo menos os animais não são condicionados. 

Esse processo de condicionamento deve ser completamente mudado. A mente deve ser treinada para ser uma serva do coração. A lógica deve servir ao amor. E assim a vida pode se tornar um festival de luzes.

Osho
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