Aviso aos navegantes

Este blog é apenas uma voz que clama no deserto deste mundo dolorosamente atribulado; há outros e em muitos países. Sua mensagem é simples, porém sutil. É uma espécie de flecha literária lançada ao acaso, mas é guiada por mãos superiores às nossas. À você cabe saber separar o joio do trigo...
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25 de agosto de 2012

Será a mente capaz de ver a totalidade do medo?

A vida vivida com medo é escura, é feia. A maioria de nós vive amedrontado de inúmeras formas, e precisa examinar se a mente é capaz de ficar totalmente livre do medo. Ninguém quer ficar livre do prazer, mas todos querem ficar livres do medo; e não percebemos que ambos andam sempre juntos; eles são, ambos, mantidos pelo pensamento. Eis porque é importante compreender o pensamento.

Temos medo da morte, da vida, da escuridão, do nosso vizinho, medo de nós mesmos, medo de perder o emprego, da insegurança, e os medos das camadas inconscientes mais profundas, ocultos nos recessos da mente. Será possível — e sem análise — a mente ficar livre do medo, de modo que fique realmente livre para aproveitar a vida? Não para perseguir o prazer, mas para aproveitar a vida? Isso não será possível enquanto existir o medo. Será que a análise eliminará o medo? Ou será a análise uma forma de paralisar a mente em relação à libertação do medo? A paralisia através da análise. A análise é uma das formas intelectuais de entretenimento. Porque na análise existe o analista e o analisado, quer o analista seja um profissional ou você mesmo. Quando existe a análise, existe a divisão entre o analista e o analisado e, portanto, conflito. E na análise você precisa de tempo; você leva dias, anos — dando a você mesmo a oportunidade de adiar a ação.

Você pode analisar todo o problema da violência indefinidamente, buscando explicações para as suas origens. Você pode ler volumes inteiros sobre as causas da violência. Tudo isso leva tempo e, enquanto isso, você usufrui da sua violência. A análise implica a divisão e o adiamento da ação e, por conseguinte, a análise traz mais conflito, e não menos. E a análise implica tempo. A mente que observa a verdade disso está livre da análise e é, portanto, capaz de lidar de frente com a violência, a qual é "o que existe". Se você observar a violência em você mesmo, a violência produzida pelo medo, pela insegurança, pela sensação de solidão, de dependência, da eliminação dos prazeres, e assim por diante, se você tem ciência disso e observa de modo total, sem análise, então você dispõe de toda a energia que foi dissipada através da análise para com ela ir além "daquilo que existe".

Como poderão os medos de raízes tão profundas, transmitidos a nós pela sociedade em que vivemos, herdados do passado, ser expostos, de modo que a mente adquira total e completa liberdade em relação a esse terror? Será possível isso através da análise dos sonhos? Podemos ver com nitidez o absurdo da análise. E será que, através dos sonhos, você ficará livre da violência?

Só porque os profissionais afirmam que você precisa sonhar — caso contrário ficará louco — será que você é obrigado a sonhar? Por que sonhar? Quando a mente está em atividade permanente, tanto de dia quanto de noite, ela não tem descanso, ela não adquire uma nova característica de novidade. A mente só se renova quando em completo silêncio, adormecida, em quietude total. Será a análise dos sonhos outra dessas falácias que aceitamos com facilidade? Os sonhos são a continuidade de nossa atividade diária através do sono, mas você produz ordem durante o dia — não a ordem semelhante à de um projeto de engenharia ou que está de acordo com o que é estabelecido por uma sociedade ou pelas sansões de uma religião; isso não é ordem, isso é amoldar-se. Onde existe conformidade e obediência não existe ordem. A ordem só existe quando você observa o quanto a sua própria vida é desordenada durante as horas de vigília. Através da observação dessa desordem surge a ordem. E quando você tem essa ordem na sua vida diária, os sonhos se tornam desnecessários.

Pode então a pessoa observar o medo na sua totalidade, na sua verdadeira raiz, na sua causa, ou apenas os seus galhos? É a mente capaz de observar, de ficar ciente, de dedicar atenção total ao medo, seja ele o medo oculto nas profundezas da mente ou aquele que se mostra nas expressões — diárias como o medo da dor de ontem voltando hoje, ou voltando de novo amanhã, ou o medo de perder o emprego, o medo da insegurança, interna e externa, o medo insuperável da morte. Há inúmeras formas de medo. Deveríamos arrancar cada galho ou encarar, enfrentar o medo na sua totalidade? Será a mente capaz de ver a totalidade do medo? Estamos acostumados a lidar com o medo fragmentado e nos preocupamos com esses fragmentos e não com a totalidade do medo.

Como vocês sabem, olhamos a raiva, a inveja, o ciúme, o medo ou o prazer como quem observa. Queremos livrar-nos do medo, ou perseguir o prazer. Portanto, há sempre um observador, alguém que olha, que pensa, de modo que olhamos o medo como se estivéssemos do lado de fora olhando para dentro. Pergunto, será que você é capaz de examinar o medo sem o observador? Concentre-se nessa questão: você é capaz de observar o medo sem o observador? O observador é o passado. O observador reconhece a reação que ele chama de medo em termos de passado; ele dá a isso o nome de medo. Sendo assim, ele está sempre olhando o presente a partir do passado e há, portanto, uma divisão entre observador e o observado. Então, será que você é capaz de observar o medo sem a reação a isso como algo do passado, que é o observador?

Será que fui claro? Veja: se você me insultou ou me elogiou, tudo isso fica acumulado na memória, que é o passado. E o passado é o que observa, é aquele que pensa. E se eu olho para você com os olhos do passado, não olho de modo original. Assim eu nunca o vejo com exatidão, eu o vejo com olhos que já foram corrompidos, que já foram embotados. Então, será que você é capaz de observar o medo sem o passado? Ou seja, não dar nome ao medo, não usar a palavra medo, mas apenas observar?

Quando você observa como um todo — e essa totalidade de atenção só é possível quando não existe observador, que é o passado — dissipa-se a totalidade do conteúdo da consciência com forma de medo.

Há o medo que vem de dentro e o que vem de fora. O medo de que meu filho morra numa guerra. A guerra é algo que está fora, uma invenção da tecnologia que desenvolveu instrumentos monstruosos de destruição. E, interiormente, eu me apego ao meu filho, eu o amo, mas eu o eduquei para se amoldar a essa sociedade na qual ele vive, que manda mantar. E então eu aceito o medo, tanto interior quanto essa invenção destrutiva chamada guerra, que vai matar o meu filho. E eu chamo isso amor ao meu filho! Isso é medo. Construímos uma sociedade corrompida, imoral; ela se preocupa apenas em possuir cada vez mais, em consumir. Não se preocupa com o desenvolvimento do mundo e dos seres humanos como um todo.

Sabem, nós não temos compaixão. Temos uma quantidade imensa de conhecimento e de experiência. Fazemos coisas extraordinárias na medicina, na tecnologia e na ciência, mas não temos compaixão de espécie alguma. Compaixão significa paixão por todos os seres humanos, por todos os animais, pela natureza. E como haverá compaixão quando existe medo, quando a mente está em permanente busca de prazer? Você quer controlar o medo, quer enterrá-lo e quer também a compaixão. Você quer tudo isso. Mas é impossível ter tudo isso. Você só pode ter compaixão quando não existe medo. Eis porque é tão importante compreender o medo nos nossos relacionamentos. E o medo extirpado quando você observa a reação sem lhe dar um nome. O próprio ato de dar um nome é uma projeção do passado. Assim, o pensamento sustenta e persegue o prazer, e o pensamento dá força ao medo — tenho medo do que pode acontecer amanhã; tenho medo de perder o emprego; tenho medo do tempo na forma de morte.

O pensamento é, pois, responsável pelo medo. E vivemos com o pensamento. Nossas atividades diárias baseiam-se no pensamento. Assim, qual o papel desempenhado pelo pensamento nos relacionamentos humanos? Se ele tem um papel, então o relacionamento é uma rotina, é medo e prazer mecânicos, cotidianos e sem sentido.

Krishnamurti - Da gravação de um diálogo público em São Francisco, 11 de março de 1973

24 de agosto de 2012

O observador é a coisa observada

O observador é o censor que não deseja o medo; o observador é o conjunto de todas as suas experiências relativas ao medo. E, assim, o observador está separado da coisa a que chama medo; há espaço entre ambos; está perpetuamente tentando dominá-lo ou dele fugir, e daí provém essa batalha entre ele próprio e o medo — essa batalha que é uma enorme perda de energia.

Observando-o, aprendereis que o observador é meramente um feixe de idéias e lembranças sem validade, sem substância nenhuma, ao passo que aquele medo é uma realidade; assim, estais tentando compreender um fato com uma abstração, e isso, naturalmente, não podeis fazer. Mas, será o observador, que diz "Tenho medo", diferente da coisa observada, o medo? O observador é o medo e, uma vez percebido isso, não há mais dissipação de energia no esforço para livrar-se do medo, e o intervalo de tempo-espaço, entre o observador e a coisa observada, desaparece. Quando percebeis que sois uma parte do medo, que não estais separado dele, que vós sois o medo, então nada podeis fazer a seu respeito: o medo terminou totalmente.

Krishnamurti

Solidão

Que coisa estranha é a solidão, e como ela é assustadora! Nunca nos permitimos muita intimidade com ela; e se por acaso o fazemos, rapidamente fugimos. Fazemos qualquer coisa para fugir da solidão, para encobri-la. Nossa preocupação consciente e inconsciente parece ser evitá-la ou superá-a. Evitar e superar a solidão são ações igualmente fúteis; embora reprimidos ou negligenciados, a dor e o problema ainda existem. Você pode se perder na multidão e ainda estar completamente sozinho; você pode estar intensamente ativo, mas a solidão silenciosamente se insinua a você; ponha o livro de lado, e lá está ela. Diversões e bebidas não podem afogar a solidão; você pode escapar dela temporariamente, mas quando o riso e os efeitos do álcool terminam, o medo da solidão retorna. Você pode ser ambicioso e bem-sucedido, pode ter enormes poderes sobre os outros, pode ser rico em conhecimento, pode tomar parte em um culto religioso e se esquecer de si mesmo no palavrório dos rituais; mas, faça o que quiser, a dor da solidão permanece. Você pode existir somente por seu filho, pelo Mestre, pela expressão de seu talento; mas, como a escuridão, a solidão cobre você. Você pode amar ou odiar, fugir disso segundo seu temperamento e suas exigências psicológicas; mas a solidão estará lá, esperando e observando, retirando-se apenas para se aproximar novamente.

A solidão é a percepção do isolamento total; nossas atividades não são fechadas em si mesmas? Embora nossos pensamentos e emoções sejam expansivos, não são exclusivos e separadores? Não estamos buscando controle em nossos relacionamentos, em nossos direitos e posses, e com isso criando resistência? Não consideramos o trabalho como “seu” e “meu”? Não estamos identificados com o coletivo, com o país, ou com alguns? Toda a nossa tendência não é isolarmo-nos, dividir e separar? A própria atividade do Eu, em qualquer nível, é um modo de isolamento; e a solidão é a consciência do Eu sem atividade. A atividade, física ou psicológica, torna-se um meio de auto-expansão. E quando não existe atividade de tipo algum, há uma percepção do vazio do Eu. É esse vazio que buscamos preencher, e passamos nossas vidas preenchendo-o, em níveis nobres ou desprezíveis. Pode parecer que não há danos sociológicos em preencher esse vazio em níveis nobres; mas a ilusão gera dor e destruição incalculáveis, que podem não ser imediatos. A ânsia de preencher esse vazio – ou de fugir dele, que é a mesma coisa – não pode ser sublimada ou reprimida; pois quem é a entidade que vai suprimir ou sublimar? Não é essa mesma entidade uma outra forma de anseio? Os objetos de anseio podem variar, mas não serão semelhantes todos os anseios? Você pode mudar o objeto de seu anseio, da bebida para o pensamento; mas sem entender o processo do anseio a ilusão será inevitável.

Não existe uma entidade separada do anseio; só existe anseio, não existe ninguém que anseia. O anseio assume diferentes máscaras, em momentos diferentes, dependendo de seus interesses. A memória desses interesses variados encontra o novo, o que produz conflito, e assim, aquele que escolhe nasce, estabelecendo a si mesmo como uma entidade separada e distinta do anseio. Mas a entidade não é diferente de suas qualidades. A entidade que tenta preencher ou fugir do vazio, da incompletude, da solidão, não é diferente daquilo que ela evita; ela é aquilo. Ela não pode fugir de si mesma; tudo que pode fazer é entender a si própria. Ela é sua solidão, seu vazio; e enquanto considerá-lo como algo separado de si, estará em ilusão e em interminável conflito. Só quando experienciar diretamente que ela é sua própria solidão, poderá haver libertação do medo. O medo existe apenas em relação a uma idéia, e a idéia é a reação da memória como pensamento. O pensamento é o resultado da experiência; e embora ele possa ponderar sobre o vazio, ter sensações a respeito, ele não pode conhecer o vazio diretamente. A palavra “solidão”, com suas lembranças de dor e medo, impede a experienciação do novo. A palavra é lembrança, e quando a palavra não é mais signifcativa, o relacionamento entre o experienciador e o experienciado é totalmente diferente; assim, aquele relacionamento é direto e não através de uma palavra, por meio da memória; o experienciador é a experiência, o que resulta em libertação do medo.

Amor e vazio não podem permanecer juntos; quando há o sentimento de solidão, o amor não existe. Você pode esconder o vazio sob a palavra “amor”, mas quando o objeto de seu amor não existe mais ou não responde, você tem consciência do vazio e se sente frustrado. Usamos a palavra “amor” como um meio de fugir de nós mesmos, de nossa própria insuficiência. Agarramo-nos à pessoa que amamos, somos ciumentos, sentimos saudades quando ela não está presente e ficamos totalmente perdidos quando ela morre; e depois buscamos conforto de alguma outra forma, em alguma crença, em algum substituto. Isso é amor? O amor é uma idéia, o resultado de associações; o amor não é algo a ser usado como uma fuga de nossa própria infelicidade; e quando nós realmente o usamos, criamos problemas que não tem solução. O amor não é uma abstração, mas sua realidade só poderá ser experienciada quando a idéia, a mente, não for mais o fator supremo.

Krishnamurti - Comentários sobre o viver

9 de agosto de 2012

Teorias e especulações nada significam diante do que é


18 de agosto de 1961

Chovera quase toda a noite e esfriara muito; caíra neve sobre os montes e colinas. Soprava um vento cortante. Os prados verdes, de um verde surpreendente, estavam extraordinariamente brilhantes. E choveu também praticamente todo o dia e, somente ao entardecer, começou a clarear e o sol despontou entre as montanhas. Estávamos seguindo por um caminho que ia de aldeia a aldeia, caminho que circundava fazendas entre esplêndidas campinas verdejantes. Os postes que sustinham os pesados cabos de eletricidade erguiam-se de forma impressionante contra o céu do entardecer e era belo, havia força, quando se admirava aquelas imponentes estruturas de aço contra as nuvens que passavam céleres. Ao cruzarmos uma ponte de madeira, vimos o riacho transbordando de tanta chuva; ele corria depressa com a força e a energia que só os riachos das montanhas têm. Ao olharmos o riacho de cima abaixo, contido entre barrancos firmes de pedras e árvores, nos conscientizamos do movimento do tempo: passado, presente, futuro. A ponte era o presente e toda a vida passava e vivia através do presente.

Mas, além de tudo isso, existia ao longo daquela senda lamacenta e varrida pela chuva, uma outra coisa, um mundo que não poderia jamais ser alcançado pelo pensamento, pelas atividades e pelos eternos pesares do ser humano. Esse mundo não resultava nem de esperança nem de fé. Não estávamos plenamente conscientes dele, naquele momento, pois havia muito a observar, sentir e cheirar: as nuvens, o céu pálido azul das montanhas, o sol no meio delas e a luz do entardecer pairando sobre o campo iluminado, e ainda o perfume dos currais e das flores escarlates ao redor das casas das fazendas. Este outro mundo estava lá cobrindo tudo, sem deixar nada de fora e quando nos deitamos, ele chegou de mansinho, enchendo nossas mentes e corações. Ficamos então conscientes de sua beleza sutil, de seu amor e de sua paixão. Não amor entronizado nas imagens, evocado nos símbolos, nos quadros e nas palavras, nem o que se encarapuça na inveja e no ciúme, mas o que está livre do pensamento, do sentimento, como um movimento em curva, perene. Sua beleza participa do auto-abandono da paixão. Não existe paixão por essa beleza se não houver austeridade. Austeridade não é um produto da mente, cuidadosamente alcançada à custa de sacrifícios, supressão e disciplina. Tudo isso precisa acabar naturalmente, pois, para essa outra coisa, não tem sentido. Ela foi se infiltrando, com sua incomensurável, desmedida riqueza. Este amor não tinha nem centro nem periferia e era tão completo, tão invulnerável que nele não havia sombra nem jamais possibilidade de destruição.

Sempre olhamos de fora para dentro; partindo do conhecimento prosseguimos rumo a novos conhecimentos, sempre acrescentando, sendo que no caso, a própria subtração é uma outra forma de adição. E nossa consciência é composta de milhares de lembranças e de reconhecimentos, estando ciente do farfalhar das folhas, da flor, do transeunte, da criança que corre pelos campos; ciente da pedra, do riacho, da luminosa flor vermelha, do cheiro ruim de um chiqueiro. A partir dessas lembranças e reconhecimentos, a partir dessa reações externas, tentamos nos conscientizar dos recessos interiores, dos motivos e necessidades profundas, mergulhando mais e mais nas vastas profundezas da mente. Todo esse processo de desafios e respostas, de experimentar e reconhecer as atividades claras e ocultas, tudo isso é consciência vinculada ao tempo.

A taça não é só forma, cor, desenho, mas também o vazio dentro dela. A taça é o vazio contido dentro da forma; sem esse vazio não existiria nem taça, nem forma. Reconhecemos a consciência por outros indícios, por suas limitações, em altura e profundidade, de pensamento e sentimento. Mas tudo isso constitui a forma externa da consciência – a partir do exterior procuramos atingir o interior, do conhecido sondamos, esperando encontrar o desconhecido. É possível sondar do interior para o exterior? O aparelho que sonda de fora para dentro, já conhecemos, mas existe um aparelho que parta do desconhecido para o conhecido? Existe? E como pode existir? Não pode existir. Se existe, ele é reconhecível e sendo reconhecível pertence ao campo de conhecido. Essa estranha benção chega quando quer, mas como cada visita ocorre, bem lá no fundo, uma transformação: tudo muda.

Krshnamurti – Sobre Deus

1 de agosto de 2012

Quando o pensamento cessa

É estranha a importância que damos à palavra impressa, aos chamados livros sagrados. Os estudiosos, como os leigos, são aparelhos que reproduzem sons gravados; eles continuam repetindo as gravações por mais que elas possam ser alteradas com freqüência. Estão interessados em conhecimento e não na experiênciação. Ele é um impedimento à experienciação. Mas é um abrigo seguro, a preservação de uns poucos; e como os ignorantes ficam impressionados com o conhecimento, o conhecedor é respeitado e reverenciado. O conhecimento é um vício, como a bebida alcoólica; ele não traz entendimento. O conhecimento pode ser ensinado, mas não a sabedoria; deve haver libertação do conhecimento para a chegada da sabedoria. O conhecimento não é moeda de compra da sabedoria; mas o homem que entrou no refúgio do conhecimento não se arrisca a sair, pois a palavra alimenta seu pensamento e ele fica gratificado com o pensar, que é um impedimento para o experienciar; e não há sabedoria sem experienciar. O conhecimento, a idéia e a crença atrapalham a sabedoria.

Uma mente ocupada não é livre, espontânea, e somente na espontaneidade pode haver descoberta. Uma mente ocupada está fechada em si mesma; é inacessível, não vulnerável, e nisso está sua segurança. O pensamento, por sua própria estrutura, é isolador; ele não pode se tornar vulnerável. O pensamento não pode ser espontâneo, ele jamais pode ser livre. O pensamento é a continuação do passado e aquilo que continua não pode ser livre. Só existe liberdade naquilo que tem fim.

A mente ocupada cria aquilo com que ela está trabalhando – pode fabricar o carro de bois ou o avião a jato. Nós podemos pensar que somos estúpidos, e somos estúpidos. Podemos pensar que somos Deus, e somos nossa própria concepção: “Eu sou Esse”.

“Mas certamente, é melhor estar ocupado com as coisas de Deus do que com as coisas do mundo, não é?”
O que pensamos, somos; mas é o entendimento do processo do pensamento que importa, não o que pensamos. Se pensamos sobre Deus ou sobre a bebida, não importa; cada um tem seu efeito particular; mas em ambos os casos o pensamento está ocupado com sua própria projeção. Idéias, ideais, metas e assim por diante são, todas, projeções ou extensões do pensamento. Estar ocupado com as próprias projeções, em qualquer nível, é cultuar o Eu. O Eu, com um “E” maiúsculo, é ainda a projeção do pensamento. Seja o que for que ocupe o pensamento, é o que é; e o que é, nada mais é do que pensamento. Assim, é importante entender o processo do pensamento.

O pensamento é a reação ao desafio, não e? Sem desafio não há pensamento. O processo de desafio e reação é experiência; e experiência verbalizada é pensamento. A experiência não é somente do passado, mas também do passado em combinação com o presente; é o consciente, assim como o oculto. Esse resíduo de experiência é memória, influencia; e reação da memória, do passado, é o pensamento.

“Mas isso é tudo que existe no pensamento? Não existe maior profundidade no pensamento do que a mera reação da memória?”
O pensamento pode se colocar em diferentes níveis, e o faz, o estúpido e o profundo, o nobre e o desprezível; mas ainda é pensamento, não é? O Deus do pensamento ainda é da mente, da palavra. O pensamento de Deus não é Deus, é meramente a reação da memória. A memória é duradoura, e portanto pode parecer profunda; mas por sua própria estrutura ela nunca poderá ser profunda. A memória pode estar oculta, fora da visão imediata, mas isso não a torna profunda. O pensamento nunca pode ser profundo ou nada além do que o Eu é. O pensamento pode atribuir-se maior valor, mas continua a ser pensamento. Quando a mente está ocupada com sua própria projeção, não foi além do pensamento, somente assumiu um novo papel, uma nova pose; sob o disfarce, ainda é pensamento.

“Mas como pode alguém ir além do pensamento?”
Esse não é o ponto, é? Alguém não pode ir além do pensamento, pois o “alguém”, o criador do esforço, é resultado do pensamento. Na descoberta do processo do pensamento, que é autoconhecimento, a verdade do que é acaba com o processo do pensamento. A verdade do que é não pode ser encontrada em qualquer livro, antigo ou moderno. O que é encontrado é a palavra, mas não a verdade?”

“Então, como o individuo encontra a verdade?”
O individuo não a encontra. O esforço de encontrar a verdade produz um fim projetado; e esse fim não é a verdade. O resultado não é a verdade; o resultado é a continuação do pensamento, estendido ou projetado. Somente quando o pensamento termina existe a verdade. Não há o fim do pensamento pela compulsão, pela disciplina, por qualquer forma de resistência. Ouvir a historia do que é produz sua própria libertação. É a verdade que liberta, não o esforço para ser livre.

Krishnamurti – Comentários sobre o viver

31 de julho de 2012

Pensamento e Consciência

Todas as coisas estavam se recolhendo em si mesmas. As árvores se fechavam em seu próprio ser; os pássaros dobravam suas asas para meditar sobre as divagações do dia; o rio perdera seu fulgor e as águas não mais dançavam, estavam calmas e reservadas. As montanhas estavam distantes e inacessíveis e o homem se recolhera em sua casa. A noite chegara e havia a tranqüilidade do isolamento. Não existia comunhão; cada coisa havia se fechado, isolado. A flor, o som, a conversa – tudo estava abrigado, invulnerável. Havia risos, mas eram isolados e distantes; a conversa era abafada e vinha do interior. Somente as estrelas estavam convidativas, abertas e comunicativas; mas elas estavam muito distantes.

O pensamento é sempre uma reação externa, ele jamais pode reagir profundamente. O pensamento é sempre o externo; o pensamento é sempre um efeito, e pensar é a conciliação dos efeitos. O pensamento é sempre superficial, embora possa se localizar em diferentes níveis. O pensamento jamais pode penetrar o profundo, o implícito. O pensamento não pode ir além de si mesmo, e cada tentativa de fazer isso produz sua própria frustração.

“O que você quer dizer com pensamento?”
O pensamento é a resposta a qualquer desafio; o pensamento não é ação, execução. O pensamento é uma conseqüência, o resultado de um resultado; é o resultado da memória. Memória é pensamento e pensamento é a verbalização da memória. A memória é experiência. O processo do pensamento é o processo consciente, o oculto assim como o aberto. Todo esse processo de pensamento é a consciência; o desperto e o adormecido, os níveis mais superficiais e os mais profundos são, todos, parte da memória, da experiência. O pensamento não é independente. Não existe pensamento independente; “pensamento independente” é uma contradição em termos. O pensamento, sendo um resultado, opõe-se ou concorda, compara ou se ajusta, censura ou justifica, e portanto ele nunca pode ser livre. Um resultado jamais pode ser livre, ele pode deturpar, manipular, divagar, ir até certa distância, mas não pode se libertar de seu próprio ancoradouro. O pensamento está ancorado na memória e jamais pode ser livre para descobrir a verdade de qualquer problema.

“Você quer dizer que o pensamento não tem valor algum?”
Ele tem valor na conciliação dos efeitos, mas não tem valor em si mesmo como um meio para a ação. Ação é revolução, não conciliação de efeitos. A ação livre de pensamentos, idéias e crenças jamais está dentro de um padrão. Pode haver atividade dentro do padrão e essa atividade pode ser violenta, sangrenta ou o oposto; mas não é ação. O oposto não é ação, é uma continuação modificada da atividade. O oposto ainda está dentro do campo do resultado, e na busca do oposto o pensamento é apanhado na rede de suas próprias reações. A ação não é o resultado do pensamento, ela não tem relação com o pensamento. O pensamento, o resultado, jamais pode criar o novo; o novo é de momento a momento, e o pensamento é sempre o antigo, o passado, o condicionado. Ele tem valor mas não liberdade. Todo valor é limitação, ele tolhe. O pensamento é restringente, pois é valorizado.

“Qual é a relação entre consciência e pensamento?”
Eles não são iguais? Existe alguma diferença entre pensar e estar consciente? O pensamento é uma resposta; e estar consciente não é também uma resposta? Quando a pessoa está consciente daquela cadeira, é uma resposta a um estímulo; e a reação da memória a um desafio não é pensamento? É essa reação que chamamos de experiência. Experienciar é desafio e resposta; e esse experienciar, junto com a nomeação ou registro disso, esse processo total, em níveis diferentes, é consciência, não é? A experiência é o resultado, a conseqüência da experienciação. O resultado recebe um termo; o próprio termo é conclusão, uma das muitas conclusões que constituem a memória. Esse processo de conclusão é consciência. A conclusão, o resultado, é a consciência de si mesmo. O Eu é memória, as muitas conclusões; e o pensamento é a reação da memória. O pensamento é sempre uma conclusão; pensar é concluir, e, portanto, nunca pode ser livre.

O pensamento é sempre o superficial, a conclusão. A consciência é o registro do superficial. O superficial se separa como o externo e o interno, mas essa separação não torna o pensamento menos superficial.

“Mas não existe algo além do pensamento, além do tempo, algo que não seja criado pela mente?”
Ou lhe contaram sobre esse estado, você leu sobre ele ou existe a experienciação dele. A experienciação dele nunca pode ser uma experiência, um resultado; ele não pode ser conjeturado – e se for, será uma lembrança, não uma experienciação. Você pode repetir o que leu ou ouviu, mas a palavra não é a coisa; e a palavra, a própria repetição, impede o estado de experienciação. Aquele estado de experienciação não poderá existir enquanto houver pensamento; o pensamento, o resultado e o efeito jamais podem conhecer o estado de experienciação.

“Então, como o pensamento pode acabar?”
Perceba a verdade que o pensamento, o resultado do conhecido, jamais pode existir no estado de experienciação. A experienciação é sempre o novo; pensar pertence sempre ao velho. Veja a verdade disso e ela lhe trará a libertação – libertação do pensamento. Do resultado. Então haverá aquilo que está além da consciência, que não é dormir nem acordar, que é sem nome: aquilo é.

Krishnamurti - Comentários sobre o viver

30 de julho de 2012

Autodefesa

Ele era um homem bem conhecido e estava em posição de prejudicar outros, o que não hesitava em fazer. Era astutamente superficial, desprovido de generosidade, e trabalhava e  benefício próprio. Disse que não gostava muito de discutir os assuntos, mas as circunstâncias o tinham forçado a fazê-lo, e aqui estava ele. Por tudo que disse e deixou de dizer, ficou bastante claro que era muito ambicioso e moldava as pessoas a seu redor; ele era cruel quando valia a pena e amável quando queria algo. Tinha consideração pelos que estavam acima dele, tratava seus iguais com tolerância condescendente e ignorava completamente aqueles que estavam abaixo dele. Não fez mais do que olhar de relance para o motorista que o trouxera. Seu dinheiro o tornara desconfiado e ele tinha poucos amigos. Falava de seus filhos como se fossem brinquedos para diverti-lo, e não suportava ficar sozinho, disse. Alguém o prejudicara e ele não pode retaliar porque a pessoa estava além de seu alcance; dessa forma, estava descontando naqueles que ele podia alcançar. Era incapaz de entender porque estava sendo desnecessariamente brutal porque queria prejudicar aqueles que dizia amar. Enquanto falava, lentamente começou a se descontrair e a se tornar quase simpático. Era a simpatia do momento, cujo calor seria cortado instantaneamente se fosse frustrado ou se algo lhe fosse exigido. Como nada estava sendo pedido, estava livre e temporariamente afetuoso.

O desejo de ferir, de prejudicar os outros, seja por uma palavra, por um gesto ou mais profundamente, é forte na maioria de nós; é comum e assustadoramente prazeroso. O próprio desejo de não ser ferido dá origem ao ferir os outros; prejudicar os outros é uma maneira de se defender. Essa autodefesa adota formas peculiares, dependendo das circunstâncias e tendências. Como é fácil ferir o outro, e quanta bondade é necessária para não ferir! Ferimos outros porque nós mesmos estamos feridos, estamos muito machucados por nossos próprios conflitos e sofrimentos. Quanto mais somos interiormente torturados, maior o impulso de sermos exteriormente violentos. A agitação interior nos impele a buscar proteção externa; e quanto mais a pessoa se defende, maior o ataque sobre os outros.
O que é que defendemos, que protegemos tão cuidadosamente? Certamente, é a idéia de nós mesmos, em qualquer que seja o nível. Se não protegêssemos a idéia, o centro de acumulação,  não haveria o “eu” e o “meu”. Estaríamos assim totalmente sensíveis e vulneráveis aos mecanismos de nosso próprio ser, tanto o consciente quanto o oculto; mas como a maioria não deseja descobrir o processo do “eu”, resistimos a qualquer interferência na idéia de nós mesmos. Esta é inteiramente superficial; mas como a maioria vive na superfície, satisfazemo-nos com  ilusões.

O desejo de fazer mal a outro é um instinto profundo. Nós acumulamos ressentimento, o que proporciona uma vitalidade estranha, um sentimento de ação e vida; o que é acumulado deve ser gasto através de raiva, insulto, depreciação, obstinação e seus opostos. É essa acumulação de ressentimento que necessita de perdão – o que se torna desnecessário se não houver armazenamento da mágoa.

Por que armazenamos lisonjas e insultos, ofensas e carinhos? Sem esse acúmulo de experiências e suas reações nós não somos;  nós somos nada se não temos um nome, um apego, uma crença. É o medo de ser nada que nos compele a acumular; e é esse mesmo medo consciente ou inconsciente que, apesar de nossas atividades acumuladoras, produz nossa desintegração e destruição. Se conseguirmos estar atentos à verdade desse  medo,  então essa verdade é que nos libertará dele, e não nossa determinação intencional de ser livres.

Você é nada. Você pode ter seu nome e título, sua propriedade e conta bancária, ter poder e ser famoso; mas, apesar de todas essas garantias, você é como nada. Você pode estar totalmente inconsciente desse vazio, desse nada, ou pode simplesmente não querer estar cônscio dele; mas ele existe, faça você o que quiser para evitá-lo. Você pode tentar escapar dele de maneiras tortuosas: por meio de violência pessoal ou coletiva, de adoração individual ou coletiva, de conhecimento ou diversão, mas quer você esteja adormecido ou acordado, ele está sempre lá. Você só pode enfrentar sua relação com esse nada e seu medo estando atento às fugas de uma forma desprovida de escolha. Você não está relacionado a ele como uma entidade separada, individual; você não é o observador assistindo a isso; sem você, o pensador, o observador, isso não existe. Você e o nada estão unidos; você e o nada são um fenômeno conjunto, não dois processos separados. Se você, o pensador, estiver com medo disso e for abordá-lo como algo oposto e contra você, então qualquer ação que puder realizar deverá, inevitavelmente, levar à ilusão e a mais conflito e sofrimento. Quando existe a descoberta, a experienciação daquele nada sendo você, aí o medo – que existe apenas quando o pensador está separado de seus pensamentos e assim tenta estabelecer uma relação com eles – afasta-se inteiramente. Somente então é possível que a mente silencie; nessa tranqüilidade, a verdade toma forma.

Krishnamurti – Comentários sobre o viver

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