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Este blog é apenas uma voz que clama no deserto deste mundo dolorosamente atribulado; há outros e em muitos países. Sua mensagem é simples, porém sutil. É uma espécie de flecha literária lançada ao acaso, mas é guiada por mãos superiores às nossas. À você cabe saber separar o joio do trigo...
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16 de março de 2012

Sobre experiências de pico

Fonte: www.angelart.me.uk

Constante e renovada contemplação.

A pessoa auto-realizadora é dotada da maravilhosa capacidade de contemplar repetidas vezes, de modo renovado e até mesmo ingênuo, as coisas simples da vida, com admiração, prazer, surpresa e até êxtase, mesmo que as outras pessoas vejam essas experiências como corriqueiras. (...) Assim para esse indivíduo, qualquer pôr-do-sol é tão belo quanto o primeiro testemunhado, qualquer flor tem um encanto deslumbrante, mesmo já tendo visto milhares de flores. O milésimo bebê parece um ser tão milagroso quanto o primeiro visto. Mesmo depois de 30 anos de casamento, continua a considerar-se uma pessoa de sorte e a se surpreender, como há 40 anos, com a beleza da esposa, mesmo ela estando com 60 anos. Para essas pessoas, até mesmo o trabalho cotidiano rotineiro ou cada momento do ato de viver pode ser excitante, emocionante e arrebatador. Essas sensações não ocorrem o tempo; elas surgem ocasionalmente e nem sempre, no entanto, nos momentos mais inesperados. A pessoa pode atravessar o rio da balsa dezenas de vezes e na décima primeira travessia reviver intensamente as mesmas sensações a mesma reação diante da beleza e igual excitação como da primeira vez em que pisara na embarcação.

Observam-se algumas diferenças entre as escolhas dos objetos de contemplação. A inclinação de alguns indivíduos é pela natureza. Outros, principalmente por crianças e, para alguns, especialmente por música de boa qualidade. No entanto, é possível afirmar que todas resultam em êxtase, inspiração e intensidade das experiências básicas da vida. Nenhum desses indivíduos, por exemplo, terá esse mesmo tipo de reação por frenquentar uma danceteria, obter muito dinheiro ou até mesmo por se divertir em uma festa.

A experiência (mística) de pico.

Essas expressões subjetivas chamadas experiências místicas, tão bém descritas por William James, são razoavelmente comuns para esses indivíduos, embora não. As fortes emoções descritas na seção anterior às vezes tornam-se suficientemente intensas caóticas e generalizadas para serem chamadas de experiências místicas.

O interesse e a atenção sobre esse assunto foram inicialmente despertados em mim pela descrição feita por esses indivíduos da sensação do orgasmo sexual em termos mais ou menos familiares que, mais tarde, me lembrei terem sido usados por vários escritores para descrever o que eles chamavam de experiência mística. Observou-se a mesma sensação do horizonte infinito se abrindo diante dos olhos, o sentimento nunca antes vivido de ser ao mesmo tempo mais vigoroso e mais impotente, sensação total de êxtase, encantamento e admiração, a perda da noção do tempo e do espaço e, finalmente, a convicção de haver experimentado algo extremamente importante e valioso, de modo que a pessoa se sinta de alguma maneira transformada e fortalecida por essas experiências até mesmo na vida cotidiana.

É importante desvincular essas experiências de qualquer referência teológica ou sobrenatural, embora por milhares de anos fossem vinculadas. Por se tratar de experiência natural, bem de acordo com a área de atuação da ciência, chamo-a de experiência de pico.

Também aprendemos com essas pessoas que tais experiências podem ocorrer em menor grau de intensidade.A literatura teológica tem geralmente assumido uma diferença absoluta e qualitativa entre a experiência mística e as demais. Assim que desvinculada da referência sobrenatural e estudada como um fenômeno natural, torna-se possível situar a experiência mística em uma série contínua do intenso ao brando. Descobrimos, então, que a experiência mística branda ocorre para muitos, talvez até para a maioria dos indivíduos; e, para as pessoas favorecidas, com frequência, até mesmo diariamente.

A mística aguda ou a experiência de pico parece ser uma extrema intensificação de qualquer das experiências em que há perda de si ou trasnscedência da experiência, por exemplo, a centralização do problema, a concentração intensa, (...) a experiência sensual intensa, o desfrute profundo e altruístico de uma música ou uma arte.

O interesse social (Gemeinschaftsgefuehl).

Essa palavra, inventada por Alfred Adler,é a única disponível para descrever perfeitamente o tempero dos sentimentos pela humanidade expressos pelas pessoas com características de auto-realização. Essas pessoas têm pelo ser humano em geral o profundo sentimento de identificação, compaixão e afeto, apesar de ocasionais raiva, impaciência ou repugnância. Por causa desses sentimentos esses indivíduos possuem um verdadeiro desejo de contribuir com a raça humana. É como se fossem todos membros de uma única família. O sentimento dessas pessoas em relação aos irmãos seria de total afeição, mesmo que sejam tolos fracos ou até mesmo deitáveis. Eles seriam perdoados mais facilmente que os estranhos.

Se a visão do indivíduo não for suficientemente geral e não for propagada durante um longo período, talvez ela não enxergue esse sentimento de identificação com a espécie humana. A pessoa alto-realizadora é, afinal de contas, bem das outras no pensamento, no impulso, no comportamento e na emoção. Em resumo, em alguns aspectos básicos, ela se parece com um forasteiro em uma terra de estranhos. Bem poucos a compreendem, mas muitos gostam dela.

Ela se sente muitas vezes aflita, amargurada e até mesmo irada pelas limitações dos indivíduos medianos; enquanto para esses indivíduos medianos normalmente são apenas simples ameaças, outras vezes se tornam verdadeiras tragédias. Às vezes, não importa quão distante ela esteja desses indivíduos, ainda nutre um sentimento subjacente básico de bondade por essas criaturas com as quais deve se preocupar se não por condescendência, pelos menos por se saber capaz de realizar muito mais do que elas, de enxergar coisas que elas não conseguem ver, porque a verdade tão clara para ela é, para a maioria das pessoas, obscura e oculta. Esse comportamento é o que Adler chamou da atitude de irmão mais velho.

Trecho Original extraído do livro Motivaton and Personality de Abraham Maslow

Relato de uma experiência culminante

Foto: egosistema
Em algum lugar do passado...

A depressão iniciática havia atingido seu ponto culminante, fazendo com que a mente entrasse em total colapso. Não mais dispunha ela da energia pendular necessária para dar continuidade a sua tentativa de solucionar o conflito — por ela mesmo criado — de forma totalmente dual (faço, não faço... largo, não largo...). Já não havia mais energia para sustentar a resistência diante do forte impulso criado pela mente para a concretização da ideia de cometer suicídio. De repente, deu-se a instalação de um estado de total rendição, de total prostração e impotência diante do poderoso fluxo de conflituosos pensamentos. O corpo se encontrava curvado, quase que em posição fetal. Com o sentimento resultante da rendição, deu-se a constatação dos nervos do corpo se soltando, liberando assim, toda a tensão que causava a dispersão de energia vital. Deu-se a percepção de todo fluxo de energia, antes preso no processo de tensão, sendo direcionado de forma abrupta em direção ao centro da mente, ocasionando algo semelhante a uma explosão silenciosa, seguida de de uma impactante fala, surgida na parte posterior da caixa craniana, bem próximo das primeiras vértebras do pescoço. A impactante fala limitou-se à expressão: "Eu Sou O Que Sou". Instantaneamente, todo conflito, toda confusão, toda tensão, todo labirinto de questionamento, dissolveu-se de tal maneira, que só pode ser simbolizada com a palavra "milagrosa". Uma possante carga de energia apoderou-se do corpo, mente e coração, energia essa que tinha seu centro de origem na região superior do cérebro, dando a impressão de que a mesma partia de um local externo do corpo, algo como um palmo acima da cabeça. Essa energia era profundamente calorosa e o corpo parecia envolto por uma brisa benfazeja, algo como uma Presença Invisível, amorosamente acolhedora. Havia o sentimento de estar seguro sobre a ação dessa Presença. Não existia o sentido de tempo e espaço, observador e coisa observada; tudo parecia ser parte de "Algo" único, dotado de cores e formas, cuja intensidade, torna-se impossível a descrição. Era possível a percepção da energia, dos pensamentos e sentimentos que moviam os seres, bem como os ambientes. Uma capacidade de leitura vibratória, instalou-se juntamente com a potencialização da sensibilidade. Uma Realidade nunca antes imaginada tomou conta de todo o ser, na verdade, não havia separação entre o ser e a Realidade. Essa Realidade se expressa num ritmo próprio, dotado de profunda calma e compaixão. Aliás, o próprio ritmo da respiração podia ser sentido como a Pura Compaixão. Não havia qualquer manifestação de ansiedade, medo ou a necessidade de movimento, de ação por parte do corpo.  Era um estado de contemplativa compaixão, o qual trazia consigo, uma percepção imediata, sem espaço para a medição da mente. Nesse estado, não havia passado, nem futuro e, em consequência, nenhum sentido de apego, inclusive no que se refere ao corpo. Havia uma tal clareza de percepção que a mesma chegava a causar dores no ser — mas que não tem nenhuma relação com as dores criadas pelo conteúdo da mente. Enquanto nesse estado, até o entendimento de línguas e símbolos que não faziam parte do conteúdo da mente, eram lidos de imediato, sem esforço, o que para a mente lógica, racional, cartesiana, soa como algo completamente destituído de sentido. Não se tratava de um processo alucinógeno, aliás, apesar da intensidade do processo depressivo, a mente e o corpo não se encontravam sobre a influência de nenhum tipo de droga receitada ou não. Uma intuição premonitória, elevada a níveis indizíveis, apontava a direção e trazia a ação imediata que não era resultante de um processo de ideação, ação imediata esta que causava conflito com outras mentes, que de forma codependente, se alimentavam do antigo estado de ser. Foi no choque com essa mentes controladoras e autocentradas que insistiam dizer que tudo aquilo não passava de um perigoso surto psicótico à ser imediatamente clinicado, que o medo encontrou espaço para a identificação e, por meio dela, deu-se a instalação do processo de "queda do paraíso". Esse estado de bem-estar e bem-aventurança deve ter levado algo próximo a sete dias; não há como precisar. No choque com a antiga realidade, instalou-se novamente um profundo quadro depressivo, no entanto, este já não apresentava mais o anterior impulso para o suicídio, mas sim, um forte impulso para a busca daquele estado de compaixão contemplativa, em cuja totalidade do ser, grafou como que com fogo, a pedra de seus mandamentos. À partir de então, toda relação que não apontasse para a potencialização do Ser e que, ao contrário, forçava ao ajustamento servil, por não servir de ponte, era deixada pelo caminho. Nenhuma verbalização tem o poder de alcançar e registrar o conteúdo do que aconteceu nesse processo iniciático de abertura e limpeza do coração. A tentativa de verbalização pela mente lógica, racional, tem tanta vida e frescor como folhas secas, soltas ao vento outonal. 
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