Aviso aos navegantes

Este blog é apenas uma voz que clama no deserto deste mundo dolorosamente atribulado; há outros e em muitos países. Sua mensagem é simples, porém sutil. É uma espécie de flecha literária lançada ao acaso, mas é guiada por mãos superiores às nossas. À você cabe saber separar o joio do trigo...

4 de outubro de 2011

Um mergulho no corpo e Universo do Ser

Escravos do Tempo


Bom dia a todos! Manhã nublada aqui em São Paulo, sonzinho dos pássaros logo cedo aqui da janela da minha cozinha, um arzinho bastante fresco, mas uma manhã tranquila. O corpo ainda um pouco cansado da viagem, uma viagem muito boa, mas a chegada em São Paulo foi um pouquinho tensa, muito trânsito, a chuva ainda para atrapalhar, mas correu tudo direitinho. A gente acabou de chegar da viagem lá para o Rio, onde fomos passar o final de semana com o Marcos, com a Enaide, com a "Família Satsang", foi muito legal, foi uma experiência muito boa conhecer os amigos, conhecer o lugar, conhecer os "Asham" do Marcos, uma cidade muito gostosa, muito diferente do que eu vivo, do local onde a gente vive aqui em São Paulo, — essa  cidade aqui que cada dia mais separa as pessoas, apesar de tanta coisa para poder agregar, para poderia ajuntar — a gente cada dia conhece menos quem está aos seu lado, seu vizinho, as pessoas não se falam... E foi muito interessante o que eu vi lá na cidade. Claro, tem seus problemas mas, muito legal, muito legal! 

Eu acordei, logo que abri os olhos, — é muito interessante isso — eu acordo e o texto já está ali na minha frente, a fala já está ali na minha frente e eu sinto a necessidade de compartilhar do "instante".  Ontem, numa das falas do Marcos, ele tocou sobre a questão da "arte" e é muito interessante ver que no meu sentimento a arte foi uma das ferramentas que o homem descobriu para tentar "compartilhar" a sua experiência do  "Inusitado", a experiência do "Sagrado", deixar pistas, deixar rastros, da própria busca. E hoje, cada dia  fica mais difícil de ver uma expressão de algo que eu possa dizer que é realmente arte, que eu possa dizer que realmente tem esse simbolismo da arte, dessa busca do sagrado. Eu tenho lá, tenho até alguns blogs em que eu coloco sobre "músicas para Cuidar do Ser", "filmes para Cuidar do Ser", que são obras que eu sinto que — além do mito romântico, que é o mito em que nós fomos educados, adestrados para ficar vendo o mundo — esse mito romântico que de romântico não tem nada, é um mito, o que chamam de "romantismo" é puro apego, não tem essa erótica do Sagrado; mas, atrás dessa arte, atrás desse mito romântico que conquista multidões — multidões adormecidas —  lá atrás, quem tem olhos de ver, quem tem os ouvidos de escutar, acaba percebendo que ali tem uma belíssima expressão da busca do Sagrado, da experiência da unidade consciente com "Aquilo" que não pode ser traduzido pelas palavras. E, agora cedo, eu abri os olhos e me veio uma música de um grande poeta... E é engraçado que eu tinha lá os meus dezoito anos de idade — isso é interessante colocar — eu tinha os meus dezessete, dezoito anos de idade e eu comecei a escrever poesia., comecei a escrever poesias e as poesias minhas tinham  muito dessa questão da erótica, da questão da sensualidade, até porque era a época em que eu estava ali na explosão da sexualidade. Então, a minha poética tinha muito sobre isso. E foi engraçado, é engraçado ver como nós somos sugestionáveis, facilmente manipuláveis quando não tem esse "centramento". Se alguém que você tem como uma "autoridade", alguém que tem um pouco mais de "propriedade", que você sente que tem mais "propriedade" do que você, uma palavra dela já é o suficiente para você "aniquilar" aquilo que você vive. Naquela época, tinham uns conhecidos que começaram a tirar um barato comigo por essa questão de escrever poesias, aquela coisa assim: "poesia é coisa de boila!... Isso não é coisa de macho!"... E eu fui deixando de escrever. Em cima da "necessidade de aceitação do outro, daquela necessidade doentia de fazer parte de um grupo, para se sentir aceito, para se sentir seguro, eu fui abafando isso que é uma coisa que está dentro de mim, uma coisa que faz parte, faz parte a poesia do "Sagrado", do "Divino". 

E, nessa época tinha um cara que eu gostava demais, um uruguaio que vivia aqui no Brasil, que teve que sair as pressas daqui, também, na época da ditadura... O Taiguara!... Mas, naquela época, eu só via as letras dele encima desse "romantismo", letras que eu podia usar para conquistar o coração de alguma "donzelinha" que eu estivesse afim. Eram músicas, letras que sempre estavam sendo utilizadas para isso, com esse fim. E há uma letra muito interessante que se chama "Universo no teu corpo"... Eu olho para essa letra hoje e eu vejo uma inteligência fora do comum, uma sensibilidade fora do comum, uma percepção fora do comum, desse padrão existencial que é comum, que está aí fora e que você vê por todos os lados... Que você vê em todos os lados!... Esse romantismo, esse dito amor que não tem nada de amor, que não tem nada de romântico, que é apego, que é dominação, que é a não aceitação do outro no momento do outro, do jeito que o outro quer, do jeito que o outro vive, que o outro sente... Essa coisa do amor que é apego, que não tem nada disso, que não tem nada de amor... Onde é que o amor vai querer "transformar o outro", "modificar o outro". "ajustar o outro" a um tipo de padrão de comportamento que favoreça as minhas necessidades pessoais, necessidades pessoais essas que não podem ser preenchidas pelo comportamento ajustado de ninguém — essas necessidades são pessoais, interiores, são intrínsecas, são profundas — são necessidades que são diretivas dessa necessidades de um contato consciente com a profunda realidade de nós... Mas não! Nós fomos educados, sistematizados, moldados a acreditar que nós temos que sair em busca da "metade de nossa laranja", da "tampa da nossa panela"... Eles cantam nas músicas: "o que é que eu vou fazer com essa tal liberdade se estou na solidão pensando em você..." Esse monte de coisa que faz um sucesso fora do comum... É impressionante, como a cada dia que passa, percebo que a mediocridade é que vence, a mediocridade é que faz sucesso!... Aquilo que é qualitativo, aquilo que é fundamental,  aquilo que realmente tem uma mensagem que possa "qualificar", que possa trazer uma percepção, que possa abrir a novos horizontes, horizontes livres de todo esse "ajustamento", de todo esse padrão que inibi a livre expressão, a autenticidade, a originalidade, isso se perde... O que faz sucesso é o medíocre, é a repetição, é essa batida que nos faz "batidos e abatidos"... Que nos torna prisioneiros num mundo de sentimentalismo, num mundo de apego, num mundo de co-dependência, num mundo de dependências emocionais, psicológicas... É isso o que a sociedade vende, é isso que a sociedade nos passa como modelo "ideal", um modelo que causa  profundo sofrimento... É só você agora abrir um jornal, logo cedo, e você vai encontrar um monte de crimes que foram crimes cometidos "por amor"... Crimes cometidos por amor... E é engraçado, a sociedade vende essas idéias, contamina todo mundo com essas idéias e, aquele que vai fundo nessas idéias, depois ele tem que ser preso, tem que ser separado da sociedade... Ele acredita nisso, incorpora isso, se identifica totalmente ao ponto de fazer com que essa loucura se "materialize"... E o cara tem que ser preso!...

E esse poeta, ela fala nessa música, "Universo no teu corpo"... E, antigamente eu olhava para essa para essa letra como uma experiência de amor, dentro de uma relação sexual. E hoje, é muito interessante perceber que ali é o "Ser falando com o Ser", a beleza de um estado de vida, de um estado de Ser em que você se vê totalmente dentro desse corpo do Ser que nos faz Ser, desse Universo de liberdade, de felicidade, que se apresenta quando do contato consciente, quando você é tocado quando você se abre, quando você se vê tocado por esse "Inominado", por esse que não tem como dar nome... Isso é maravilhoso! Porque tira você dessa frequência, abre seus olhos para perceber esse estado de sonambulismo em que todos vivem e que todos defendem com unhas e dentes, com garras afiadíssimas, como sendo algo que deve ser mantido... Algo que faz de tudo e de todos uma posse, uma posse a ser protegida... E que faz de tudo e de todos que se aproximem disso que a gente elege como o fator de segurança psicológica nossa, faz olhar a todos e a tudo que se aproxima disso, como inimigos, como ameaças... Que nos mantém num estado fechado que impossibilita um real encontro com outro ser humano, que nos impossibilita de viver as situações que se apresentam na nossa frente, 100% abertos, holisticamente abertos, com cada célula de nosso corpo, mente e coração, ali... Não dividido, não fragmentado... Não ali com aquela postura interna de sempre estar com medo de que algo possa acontecer... Não há um estado de liberdade, de total entrega. 

E o Taiguara, nessa música, logo na primeira estrofe ele fala: "Eu desisto, não existe manhã que eu perseguia, um lugar que me dê trégua ou me sorria e uma gente que não viva só pra si..." É muito interessante essa visão desse poeta, esse grande poeta, esse místico, de ver uma grande realidade... A cada dia que passa nós vivemos num mundo em que as pessoas estão cada vez mais centradas, perseguindo seus "objetivos umbigóides", aqueles centrados no próprio umbigo... Sempre brigando, sempre disputando, nunca num estado de trégua... Sorrindo um sorriso verdadeiro, não aquele sorriso amarelo, cheio de interesses velados, como está difícil isso! E o engraçado, quando você se depara com alguém que vive isso, alguém que vive essa simplicidade, essa pessoa "não é levada a sério!"... As pessoas cobram que essa pessoa tem que ter comportamentos completamente diferentes, tem que assumir posturas diferentes, posturas que são socialmente aceitas, posturas que são tidas como "normais"... Não tem nada de saudável em querer ser normal! O que tem de saudável em querer ser "normal? Dá uma olhada no que a normalidade está fazendo com a vida, com a vida de relação... Dá uma olhada no que a normalidade está fazendo com o planeta... Dá uma olhada no que a normalidade está fazendo com a família... Dá uma olhada no que a normalidade está fazendo com os casamentos... Dá uma olhada no que a normalidade está fazendo com o corpo de cada um de nós... O que as pessoas estão fazendo com os seus corpos para parecem "normais"... Se não bastava adulterar todinha a "psique" do ser humano, nós estamos dando um jeito, dentro dessa normalidade, de ajustar e adulterar, inclusive o corpo... A beleza da autenticidade, da originalidade não é normal... Que valores que são esses? O que diria Taiguara se estivesse ainda aqui com a gente?...

"Só encontro gente amarga mergulhada no passado..." Essa frase então, ela diz tudo!... As pessoas não conseguem viver o instante presente... As pessoas não conseguem viver as pessoas e as situações como se apresentam agora... Não conseguem ver a beleza do agora, não conseguem ver as pessoas no agora... Elas querem ajustar as pessoas e as situações àquilo que em determinado momento deu segurança... Carregando todo esse peso do passado... Como podem ver alguma coisa nova? Como a gente pode ver o outro carregando o passado nas costas?... Como é que eu posso ver o mundo carregando as pessoas?... Eu lembro que eu frequentava um grupo em que tinha um senhora, que ela tinha perdido o marido. E ela falava que era muito apaixonada porque ele foi o único homem da vida dela e que ela queria arrumar um outro companheiro... Mas ela não conseguia arrumar um outro companheiro porque, nenhum deles, tinha "aquilo" que os ex-marido tinha... Então, ela não queria uma outra pessoa, ela queria o ex-marido no corpo de outra pessoa... E, com certeza, até hoje deve estar vivendo sua solidão amarga... Sempre mergulhada no passado, nas lembranças, naquela fantasia cor-de-rosa, que ela mesma criou, do que que é beleza, do que é romantismo, do que é "ideal", do que é "normal"...

E o mais interessante ainda, na música ele fala: "... Gente amarga mergulhada no passado, procurando repartir seu mundo errado, nessa vida sem amor que eu aprendi..." Olha que riqueza isso!... Gente amarga mergulhada no passado, procurando repartir seu mundo errado, nessa vida sem amor que eu aprendi..." É impressionante a amplitude de visão, nessas estrofes, nessa poesia maravilhosa, que é bem o que a gente vê!... Essa doença romântica do apego às crenças, aos preconceitos, aos achismos, ao modismo, à tradição, sendo perpetuada sem a mínima reflexão, sem a mínima ponderação. E não tem como ser diferente porque esse é o padrão que foi ensinado desde a mais tenra idade. Por isso que eu falo da importância da insatisfação, do tédio. Em meu blog, Histórias para Cuidar do Ser, ele tinha no cabeçario dele, antes, "reflexões em momentos de tédio e insatisfação"... Porque, enquanto não há essa insatisfação, enquanto não há o tédio diante desse padrão doentio, herdado, aprendido, incentivado, alimentado, não tem como se abrir para algo novo, não tem como surgir aquelas perguntas fundamentais, perguntas que abrem e dão espaço para a instalação de um "novo Estado de Ser"... Um Estado de Ser que pode levar para a genuína liberdade do espírito humano, se é que podemos usar essa palavra "espirito", essa palavras que está tão suja, tão cheia de condicionamento... Mas eu vou usar ela aqui só para a gente se comunicar... Nós insistimos em passar adiante esse padrão adoentado de vida, esse padrão adoentado, esse padrão insano, que produz seres humanos robotizados, seres humanos em série, seres humanos doentes... Verdadeiras bombas emocionais que vão explodir em seu determinado tempo, causando dor a si mesmo e aos demais que estão em volta. Nós insistimos nisso! Insistimos em repartir, em passar para frente isso que aprendemos com pais, escolas, professores... Nós insistimos nisso!... Vemos beleza nisso!... Que beleza que há nisso? Que beleza que pode haver no ajustamento? Que beleza que pode existir em você negar a sua autenticidade, a sua originalidade, a livre expressão para adaptar tudo isso que você sente, tudo isso que você pensa à um modelo, só para poder fazer parte de um grupo, só para, entre aspas, "ser querido, ser amado"... Amor de pai, amor de mãe... É? Faz alguma coisa que eles não gostem e você vai ver o amor deles!... Vai ver quanto tempo eles vão ficar com birra, boicote, cara feia, batendo portas, chutando lata...

"Gente amarga mergulhada no passado..." E como é triste ver: a amargura do passado, desfigura a beleza física de todos! Quanta gente falando "tudo bem!" e bastam dois segundos para você ver a expressão facial das pessoas e você ver que é um poço de sofrimento, um poço de mágoa, um poço de ressentimento, de angústias, frustrações... Sempre buscando inimigos externos, sem perceber que o verdadeiro inimigo está aqui dentro, que o grande inimigo é essa identificação nefasta, doentia, insana com isso que convencionaram como sendo vida e que não tem nada de Vida... Não existe vida nisso! Onde pode existir vida em viver de memórias, de lembrança, só das memórias eufóricas, dessas lembranças de nuvens cor-de-rosa, que é muito bom para aquelas histórias de ninar criança!... Mas não para adultos vivendo a realidade da Vida!... Como eu posso viver o frescor da Vida se eu vivo preso em lembranças daquilo que eu acho que é o ideal...

Ninguém tem culpa disso! Mas tem a responsabilidade de perceber isso: que nós fomos criados, formatados, adestrados, para endeusar o ajustamento à um ideal estabelecido por terceiros e por terceiros que você nem conhece... Terceiros que criaram ideais, talvez, há milhares de anos atrás e que estão sendo perpetuados causando, há milhares de anos, conflitos entre os homens, conflito entre as famílias, conflitos pessoais, e que por causa desses conflitos pessoais criando tanta rede de sistema de crença que erroneamente dão o nome de "religião"... Como que a religião pode estar dentro de um "sistema de crença organizado"?... Um sistema de crença organizada é um monte de, é uma meia dúzia de homens e mulheres que não tem a capacidade de ver por si mesmo a sua Real Natureza, e se encantam diante de alguém que encontra sua Real Natureza e ficam lá beijando o pé o outro, querendo saber como que é a experiência do outro, em vez de ir atrás da própria experiência libertadora... Então, ai vamos edificar um templo, vamos edificar uma mesquita, vamos edificar sei lá o que!... E vamos ficar falando encima da experiência direta, do contato consciente direto de alguém  que experimentou a Vida em toda sua plenitude... E vamos se adequar a esse ideal, a essa regrinha para poder conseguir igualzinho aquilo que o outro conseguiu...

Uma vida totalmente sem amor! Amor não tem nada a ver com isso que cantam nessa músicas, que passam nas novelas, nas rádios, nas revistas... Isso não tem nada de amor! As pessoas não conseguem, como diz o Taiguara, na letra dele, perceber que "somos cegos e cativos por uns velhos e vãos motivos, no deserto do universo sem amor"... Olha a beleza disso!... "Por uns velhos e vãos motivos, somos cegos e cativos no deserto do universo sem amor"...Olha uma pessoa presa nas lembranças, nas memórias, nos preconceitos, nos ideais do que é o certo, do que é o correto, do que é aceitável... Há um profundo deserto estampado no olhar... Bastaria apenas um segundo de honesta reflexão diante de um espalho, olhando o próprio semblante para perceber que não está tudo bem, para se perceber cativo. E, sem essa percepção de que se é cativo não existe o primeiro passo, o primeiro passo que pode colocar em contra marcha todo esse processo de ajustamento doentio que impossibilitou a escuta atenta da voz do coração, essa voz que coloca "outra Voz" em nossa voz, essa fala que coloca "outra Fala" em nossa fala. Sem esse cansaço, sem perceber que o problema não está em nenhuma situação externa, que o problema está aqui dentro do fregues, não tem como saber o que é viver imerso no universo desse corpo do Ser que nos faz ser. Não tem, como ele fala: "Vem comigo, meu pedaço de universo é no teu corpo, eu te abraço, corpo imerso no teu corpo e em teus braços se unem versos à canção"... Não tem como fazer parte da Canção da Vida, quando estou preso a tudo isso, a todo esse ajustamento, a todo esse passado de memórias, de imagens, de conceitos, não tem como descobrir o que esse grande poeta incompreendido pela grande maioria... Aliás, parece que é uma sina dos poetas, é não ser compreendido, parece que grandes mentes sempre se parecem pequenas diante da mente dos "normais", dos "normais"... Os poetas sempre acabam no ostracismo, o que as vezes, é uma grande Benção!... Antes só do que mal acompanhado, porque, quando se está mal acompanhado se é bem condicionado, se é bem ajustado, influenciado, e o poeta sabe o risco que isso significa quando não se está pronto, quando não se está mergulhado no universo desse corpo do Ser que nos faz ser. Eu falo, eu falo hoje abertamente para as pessoas que hoje são poucos os que estão à minha volta, mas são sinceros. Não existe qualidade na quantidade... Pelo menos, até agora, eu não encontrei isso, se eu encontrar isso, eu venho até aqui e mudo, porque a grande beleza é poder se contradizer. Uma vez eu ouvi um grande poeta e irmão, Roberto Crema, falando: "Contradigo a mim mesmo porque sou vasto"... Nem sei se essa frase é dele, mas ele falou lá no evento e eu achei que essa foi uma daquelas falas bombásticas, uma daquelas falas libertadoras... Contradigo a mim mesmo porque sou vasto!... Só não se contradiz aquele que está seguindo um padrão, que na realidade, essa é a maior contradição da vida: seguir um padrão. A essência da contradição já está ai: eu sinto uma coisa, eu penso uma coisa, mas eu sigo o padrão... Eu me ajusto, sem ser justo. Ai pergunto para você: Você prefere o que? Se ajustar ou ser justo, justo com você mesmo, com seus sentimentos? Eu escolhi isso, está lá no meu blog: apesar do ostracismo, seguindo sempre, questionando sempre. Eu quero isso, eu quero isso: viver essa Canção da Vida, viver completamente imerso no universo da verdade, no universo da Beleza, da Beleza que não precisa de bisturi, que não precisa de seringas, não precisa de academias, não precisa nada disso! A Beleza não está nisso! A Beleza não está nisso, a Beleza não pode ser fabricada! Ninguém percebe isso? Que atrás dessa beleza eles vão colocando um monte de "carnezinhos" do lado da cabeceira da cama?... E, por mas que façam, nunca veem Beleza!... "Gente amarga, mergulhada no passado", todas elas sabem muito bem o que é por mais que façam, se olhar no espelho e se sentir uma farsa... Se olhar no espelho e não se sentir livre... Olhar no espelho e perceber e perceber que em si mesmo, com suas próprias qualidades, com a qualidade daquilo que traz em si, não é feliz!... Que a sua "felicidade" está sempre em algo externo, está sempre no outro... É uma tristeza muito grande, sofre dessa doença do "outrite": o problema está no outro, o problema não está aqui com o "freguês"...

E é maravilhoso quando o ser humano consegue dar as boas vindas para o tédio, para a insatisfação, para a tristeza, para a angústia, para os sofrimentos que carrega em si. Todas essas dores, são como dores de parto: todo nascimento é precedido por uma dor de parto. E, quando há um nascimento, há uma morte para um estado anterior e é isso que esse poeta quis dizer:  "Vem que eu digo que estou morto para este triste mundo antigo, que meu porto, meu destino, meu abrigo"... Está aqui: são seu corpo, amante amigo em minhas mãos... Não está na mão do outro!... "São seu corpo amante amigo em minhas mãos"... E isso só pode se fazer presente quando temos a dignidade de não mais responsabilizar o outro pelo nosso estado de infelicidade, quando somos capazes de perceber que a nossa doença, a nossa tristeza, não é o outro, que nós somos a doença, que nós somos a doença, que nós somos o próprio remédio e esse remédio vem com esse início dessa percepção desse sofrimento que carregamos. Não tem como ser diferente, não tem como ser saudável se continuamos nos ajustando a um padrão preestabelecido por terceiros. Não há como experimentar liberdade e felicidade enquanto colocamos nosso estado de bem-estar na mão de pessoas e situações. Não há como morrer para esse mundo antigo sem perceber, por si mesmo, o tamanho do deserto que carregamos dentro de nós mesmos por acreditar, por validar, isso que foi passado através da cultura, através da tradição, através da educação, que não tem nada a ver com a palavra educação... Essa educação que não nos prepara para a vida... Na realidade, deveriam mudar essa palavra para "formatação"... Em vez de "sistema de ensino público", deveria ser "sistema de formatação pública"... Não existe uma educação para a vida, não existe uma educação para ouvir a "Canção da Vida", para compreende-la, para vibrar com ela. Tudo que nos ensinaram foi a mediocridade dessa canção popular que nos impede de experienciar o Belo.

E é também uma tristeza perceber a total impotência diante daqueles que ainda defendem essa infelicidade feliz que está ai: pessoas batendo a cabeça na parede o tempo todo e arrotando certezas incertas, com suas coleções de "Eu estou bem! Está tudo bem! Está tudo maravilhoso! Eu me banco!"... Todos nós sabemos bem o que é isso: esse estado de uma mente que não para, uma mente que fica sempre fugindo para o passado ou para o futuro, com medo de que situações do passado aconteçam novamente lá no futuro e que causa um estado de constante tensão interna que impede de viver o momento presente com toda a sua intensidade. Como que alguém presa ao passado, nessa ponte passado e futuro, pode saber o que é a realidade, o que é amor, o que é verdade, o que é realização? Será possível ver a realidade do momento presente, a realidade do mundo a nossa volta, a realidade do mundo dentro de nós, a realidade das pessoas que estão a nossa volta, se nós insistimos em ver tudo isso através dos filtros embaçados de nosso passado? Como que eu posso ver a vida do outro como realmente é, não do jeito que eu gostaria que fosse? Como eu posso desfrutar do real se eu sou prisioneiro, se eu sou cativo, se eu me vejo mergulhado no passado e procurando contaminar todo mundo com esse passado?  É possível descobrir verdadeira liberdade, autonomia e auto-suficiência psicológica, ser um ser, um "indivíduo" no sentido de ser alguém que é "indivizivel" por dentro, indivíduo, não dividido, alguém não dividido, não fragmentado,  alguém inteiro por dentro... É possível isso se sou prisioneiro do passado, se sou prisioneiro das crenças, da educação, dos achismos, dos conceitos, dos preconceitos, dessa desgraça chamada "religião", que nos separa de nós mesmos e de qualquer divindade, que nos separa da experiência direta desse Ser que nos faz ser, que nos separa em sectarismos, em grupos, que criam as chamadas "guerras santas"... Olha a dualidade, a insanidade do homem: guerra santa!... É a mesma coisa desse "amor" ai, desse amor que "eu mato, eu amo tanto ele que eu mato ele, eu mato ela, eu mato os filhos, mas, sem mim, não pode!" ... Esse amor ai que quer colocar tudo dentro de gaiolas, que não vê a beleza no voo livre, porque, em si mesmo não consegue voar, esta sempre precisando da asa do outro....

"Gente amarga mergulhada no passado, procurando repartir seu mundo errado nessa vida sem amor que eu aprendi"... E é uma benção estar aqui nesta manhã que começa a se abrir na rota dos aviões e poder dizer que esse passado, a cada dia que passa, fica mais em seu devido lugar: no passado. É tão interessante quando você acorda, desperta para esse Estado de Ser, você aprende o tempo todo!... Ontem eu vinha na estrada, a Deca vinha dormindo no banco do lado e eu estava prestando atenção como que é a vida... A vida é como uma grande estrada mesmo... O retrovisor, tem seu devido lugar, mas é preciso olhar ele muito rapidinho... O passado tem seu devido lugar, mas é para ser olhado muito rapidinho... Os olhos tem que estar aqui há poucos metros... Pode se olhar o futuro, lá na frente, mas muito rapidinho!... Os olhos tem que estar aqui na frente, a atenção tem que estar, a atenção plena tem que ser aqui na frente, no que está ocorrendo aqui na frente. Posso olhar um pouquinho no retrovisor, no passado, para não cometer erros, não ter grandes acontecimentos trágicos, mas a atenção tem que estar aqui na frente. A Beleza esta sempre aqui, bem aqui... A beleza da viagem é poder não ter a ansiedade da chegada, mas olhar o que está se passando aqui, aonde você está passando agora...

Isso é muito legal, não tem preço, a percepção de tudo isso não tem preço, o mergulho no universo desse corpo do Ser, não tem preço. A esse grande poeta, Taiguara, onde ele estiver criando seus versos, eu só queria dizer: "Que hoje, eu te compreendo!"...

Então é isso! Fica ai o convite, o desafio para cada um ter a coragem de parar diante do espelho, olhar bem a sua própria expressão e se perguntar se ai tem Vida, Vida em abundância, uma Vida que independe de qualquer situação externa, que independe do "outrite"... Se há verdadeira Vida, na vida que você é... Se você realmente vive a beleza do universo nesse corpo do Ser.

Um fraterabraço e um beijo no seu coração!
Nelson Jonas Ramos de Oliveira



Universo no teu corpo
Taiguara

Eu desisto
Não existe essa manhã que eu perseguia
Um lugar que me dê trégua ou me sorria
E uma gente que não viva só pra si
Só encontro
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi
Por uns velhos vãos motivos
Somos cegos e cativos
No deserto do universo sem amor
E é por isso que eu preciso
De você como eu preciso
Não me deixe um só minuto sem amor
Vem comigo
Meu pedaço de universo é no teu corpo
Eu te abraço corpo imerso no teu corpo
E em teus braços se unem em versos à canção
Em que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
Vem, vem comigo
Meu pedaço de universo é no teu corpo
Eu te abraço corpo imerso no teu corpo
E em teus braços se unem em versos a canção
Em que eu digo
Que estou morto pra esse triste mundo antigo
Que meu porto, meu destino, meu abrigo
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
São teu corpo amante amigo em minhas mãos
São teu corpo amante amigo em minhas mãos.
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